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  • Ruben Gonzalez: em forma… aos 40
    26 março 2018
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  • Tetracampeão nacional cumpre aniversário em competição e fala sobre os desafios que o fazem continuar a desfrutar da sua paixão.
  • Esta segunda-feira é um dia especial para Ruben Gonzalez. Não só porque vai iniciar a participação em mais uma prova do WQS, desta vez no QS1000 da Caparica, mas também porque chega à bonita e redonda marca dos 40. O tetracampeão nacional, que divide o recorde de títulos com Vasco Ribeiro, está de parabéns. No entanto, a idade que para muitos pode ser um entrave, para Ruben é apenas um número. Ele não parece disposto a parar por já e tem como desafio quebrar barreiras e mentalidades na sociedade.

    “O facto de ainda competir faz com que possa manter-me em forma e atualizado no desporto que tanto gosto”, começa por referir Ruben Gonzalez. “Mas também sou motivado pelo facto de mais de meia sociedade pensar que um atleta a partir dos 35 não está apto para fazer certas coisas que os miúdos mais novos fazem. A experiência de competir com mais de 40 anos é um desafio, pois quero ver como lido com essa questão. Esse é o meu grande desafio, entrar em competições com esta idade e com o objetivo de alcançar um bom resultado”, explica-nos o surfista de Cascais.

    Apesar do avançar da idade e de uma carreira que começou há mais de 20 anos, Ruben garante que não sente problemas em termos físicos. “Não senti nada de mudanças físicas. Vejo que se ficarmos algum tempo parados o retorno acaba por ser mais complicado. Mas também vejo que o meu surf mudou completamente. Tenho 40 anos e vejo surfadas de quando tinha 20 anos e acho que hoje em dia faço coisas que antigamente não fazia. Há medida que avanças na idade muitos aspetos melhoram. O meu desafio é querer experienciar isso e querer ver se a idade é realmente um fator com influência no desporto”, reforça.

    Em 2018 Ruben Gonzalez mantém-se em competição. Já fez inclusivamente um 9.º lugar num QS1500 em Tenerife, no início da época. No próximo mês prepara-se para o arranque da Liga na Ericeira, numa temporada que pode ficar marcada por um feito especial, caso Vasco Ribeiro consiga o quinto título nacional, o que o isolaria na lista de vencedores. No entanto, essa passagem de testemunho é algo que não faz qualquer confusão na cabeça de Ruben. “Ainda bem que o Vasco igualou o meu recorde. À medida que o tempo avança é perfeitamente normal os miúdos pensarem nisso e verem o recorde como algo a ser batido”, admite.

    “Continuo a entrar na Liga porque é algo interior que tenho, uma paixão pelo desporto. Estou sempre à procura de melhorar, de inovar a parte técnica e não perder isso. Por isso continuo no surf, nas competições e nas minhas aventuras de ondas grandes. Sinto que se tivesse limitado à competição talvez me cansasse um pouco, mas tenho outras coisas a par da competição e isso faz com que tudo seja um complemento. É uma diversão, mas levada a sério”, confessa “Tainha”, como também é apelidado entre a tribo do surf.

    Ruben garante que hoje em dia tem mais facilidade em muitas das vertentes do surf, em relação ao passado. Contudo, no que toca aos apoios, o assunto é diferente. “Sinto que me vim um pouco abaixo ao nível dessa transição, porque ouvimos os outros a dizer que estamos velhos. Se não estivermos focados e centrados essas coisas podem afetar-nos. Ali na altura dos 35, numa fase de transição e de pensar nas coisas, perdi um pouco o prazer de surfar, mas talvez por um aspeto mais emocional. Talvez é o que se passe um pouco agora com o Mick Fanning. Mas são momentos e as pessoas têm de ter a capacidade de parar um ano se for preciso. Vejo muitos surfistas que acabam a carreira e parece que o fazem de uma forma muito triste e pesada. Quase todos eles. E eu não a quero acabar assim (risos). É preciso não sermos tão radicais”, aponta-nos.

    O jovem que tombou o Golias

    Se recuarmos mais de 20 anos no tempo, até 1997, vamos ter a um dos pontos altos da carreira de Ruben Gonzalez. Ainda júnior, o jovem surfista português conseguiu bater o rei Kelly Slater na etapa do WCT realizada na Praia Grande. Virou foco das atenções e foi chamado de “tomba gigantes”. Curiosamente, ambos ainda competem, sendo dos maiores exemplos de longevidade dentro e fora de portas. “Esse ano de 1997 foi muito bom para mim. Ganhei uma das provas mais importantes do nacional e ainda fiz uma final do circuito europeu, que me colocou no top 10 do ranking”, recorda Ruben.

    “Depois aconteceu isso de vencer o Slater. Penso que, como era miúdo, nem caí bem na real. Depois é que vi o impacto que aquilo teve em Portugal e a nível mediático. Hoje-em-dia é um ídolo para mim e na altura ainda mais era. Parece que lhe estou a seguir o exemplo de longevidade (risos). O Kelly até nisso está à frente de muita gente a todos os níveis. Ele não se deixa ir por certos fatores externos e está ligado à sua própria essência. Eu também me sinto um pouco assim, ligo mais ao meu coração e àquilo que gosto, fazendo de tudo para continuar a fazer aquilo que gosto. Esse é o meu lema de vida”, assume.

    Ainda assim, Ruben Gonzalez recusa escolher apena um único ponto alto da carreira, sublinhando várias boas fases que teve, inclusivamente a atual. “Aos 19 anos tive uma boa fase. A partir dos 25 até aos 30 também. A nível de projetos e numa competição ou outra tive uma boa fase entre os 34 e 36. E agora é outra fase boa (risos)… porque estou cheio de dinâmica”, garante-nos.

    Durante os primeiros passos Ruben Gonzalez foi muitas vezes comparado com Tiago Pires, dois anos mais novo, mas colega de geração. Ainda assim, Saca conseguiu chegar mais longe a nível internacional, pisando mesmo o palco da elite mundial. Para Ruben, a diferença esteve na ambição de ambos. “Até aos 20 e tal anos não dava muita importância ao facto de ser surfista profissional e de ter um objetivo de ser campeão do Mundo. Sinceramente, tinha objetivos não tão altos como o Saca, que aos 19 anos já dizia que queria ser campeão do Mundo. A grande diferença foi essa, eu não pensava nisso. Para mim chegava ganhar campeonatos nacionais e europeus. Esse era um objetivo bom e que me contentava. O Saca quis ir muito mais além, é essa a grande diferença”, frisa.

    “Com a idade mudei o meu pensamento. Pensar alto é quase tudo na vida e encaminha-te para o que queres alcançar. A ambição é super importante para a carreira de um surfista profissional. À medida que fui crescendo comecei a dar-me melhor em campeonatos do WQS e até fiz a Triple Crown havaiana, algo em que antes não pensava. Eram outros tempos. O Saca foi muito mais ambicioso e isso fez a diferença entre nós. Fiz a coisa de uma forma muito mais leve e espontânea, deixei o coração falar por si”, argumenta o tetracampeão nacional.

    Um futuro e presente de ondas grandes.

    Ruben é um dos surfistas mais versáteis do surf nacional e foi ele um dos pioneiros das ondas grandes no nosso país. O surfista de Cascais consegue imaginar-se a competir no Big Wave Tour, mas sabe que o caminho para lá chegar é complicado. “É uma coisa em que penso e até gostava de fazer um campeonato ou outro. Mas as ondas grandes é algo que faço por puro prazer. Se acontecer ótimo, mas sei que é difícil porque tens que te dedicar àquilo a 100 por cento. Como eu gosto do surf como um todo, não sei se virá a acontecer ou não. As vagas dependem muito da WSL, é preciso muitos registos de ondas grandes para haver essa oportunidade. Espero que um dia aconteça isso, mas as ondas grandes é algo que faço mais por desafio”, sublinha.

    A juntar a isso, Ruben ainda complementa o seu dia-a-dia com vários outros projetos relacionados com o surf. “Tenho a minha escola e academia. Trabalho com miúdos até aos 16 anos, que queiram competir e aprimorar a técnica. Faço training camps com eles. E estou a desenvolver um modelo de pranchas desde há dois anos para cá com a Xhapeland. Pareço o Kelly Slater (risos)”, brinca Ruben.

    Nem só de surf se fez a carreira de Ruben Gonzalez, que antes de se dedicar às ondas foi destaque noutros desportos. “Fiz ginástica desportiva até aos 10/11 anos, em que tive excelentes resultados em vários concursos europeus e nacionais. Até ganhei várias vezes a medalha de bronze. Depois disso tive na equitação muito tempo. Fiz vários concursos e fui a várias finais. Hoje em dia ainda faço, muito raramente. A partir dos 14 anos liguei-me mais ao surf e pronto. Mas pratico vários desportos. Faço jiu-jitsu, yoga e também tenho o complemento de ginásio e natação. São um extra para o surf”, remata.

    Currículo:

    Ruben Gonzalez, 40 anos

    Top 20 nacional em 2017 e atual n.º 190 do WQS

    - 1990: Início da carreira;

    - 1994: Campeão europeu sub-16;

    - 1997: Wildcard WT em Portugal, alcançando um 9º lugar - o melhor resultado de um júnior numa prova do circuito mundial até àquela data;

    - 2000- 2004: Top 10 circuito europeu profissional de surf;

    - 2004 - 2008: 4 vezes campeão nacional - primeiro tetra campeão nacional;

    - 2008 - 2012:  Presença na Triple Crowd Havaiana, top 100 mundial, vice-campeão da prova 2* dos WQS nas canárias; iniciou o projecto da Nazaré, juntamente com o Mcnamara e pioneiro nos surf kids training camps;

    - 2012-2013: Iniciou o projecto da onda do Cabo Raso, foi embaixador do surf no concelho de Cascais, realizando dois filmes promocionais - A Onda Escondida e a Capital do Surf. Foi ainda campeão europeu por equipas no EuroSurf dos Açores;

    - 2014-2016:  Finalista duas vezes consecutivas no special event Capítulo Perfeito e realizou a webserie “Portugal Silver Coast", em 4 episódios.

     

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