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  • Será desta que o Panda vira Cinderela e chega ao WCT?
    09 outubro 2017
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  • Aos 31 anos, surfista brasileiro pode chegar pela primeira vez à elite mundial, depois de ter batido inúmeras vezes na trave no passado. Para já, segue no 4.º posto do ranking do WQS, estando muito perto de alcançar o objetivo.
  • Willian Cardoso é um dos surfistas com mais experiência e maior currículo dos que competem no WQS. Mas também é um dos que o azar mais vezes lhe bateu à porta. Participou já em várias etapas do WCT, onde se estreou há cerca de 10 anos como wildcard, mas nunca pertenceu à elite mundial a tempo inteiro. Teve perto de o fazer em três ocasiões consecutivas, mas bateu mesmo na trave, sendo que o máximo que conseguiu foi ser alternate do Tour. Agora, aos 31 anos, e depois de ter ponderado o futuro no WQS no início da temporada, parece estar a chegar o momento do imponente surfista brasileiro a quem todos chamam de “Panda”. Eis a mais recente Cinderella Story do surf mundial!

    A vida de Willian Cardoso ganhou novo rumo a meio deste ano, após a final alcançada em Ballito, no primeiro QS10000 da temporada. Deu um pulo enorme no ranking, voltou a acreditar no grande objetivo que tantas vezes roçou e ganhou um novo ânimo - assim como dinheiro que tanta falta fazia. Tanto é que a praticamente dois meses do final da temporada ocupa o 4.º lugar do ranking WQS e com mais 2 mil pontos nas contas poderá perfeitamente fazer a festa. Para tal muito contribuiu o 5.º posto alcançado na semana passada no QS10000 de Cascais, onde só Frederico Morais o travou, impedindo-o de fechar já a qualificação.

    Foi em 2007 que Cardoso se estreou no WCT, entrando como convidado na etapa de Santa Catarina, no Brasil, e longe de saber a relação antagónica que iria viver como a elite do surf mundial. Fê-lo da melhor forma ao vencer na primeira ronda um heat frente a Bede Durbidge e Greg Emslie, sendo depois eliminado na terceira ronda por Taj Burrow. A partir daí tornou-se numa verdadeira ameaça no WQS, conseguindo colecionar vários títulos em etapas importantes. Venceu um 5 estrelas em Pantín, em 2008, e repetiu o feito no ano seguinte no mesmo local. Em 2009 foi ainda o vencedor da primeira edição do 6 estrelas nos Açores, terminando o ano no top 30 mundial, no WQS. Já em 2010 venceu um 6 estrelas em Saquarema.

    Willian Cardoso começou, então, a aproximar-se do topo. Mas o destino não ia ser seu amigo nos anos seguintes. Em 2011 foi extremamente regular, com um segundo lugar num 6 estrelas e três terceiros nos Primes, mas terminou no 35.º posto do ranking, a apenas um lugar de entrar no WCT, fruto do enorme favorecimento que existia na altura para os surfistas da elite mundial em termos do ranking do WQS, onde os seus melhores resultados no Tour também contavam para a qualificação por fora. No final do ano ainda teve wildcard para o Pipe Masters, voltando a competir entre os melhores, mas perdeu na primeira ronda para Shane Dorian.

    Ficou com o posto de alternate para 2012 e, graças a isso, conseguiu entrar em algumas etapas do World Tour, mas sem grande êxito, pois nunca passou da primeira ronda. No Rio de Janeiro foi eliminado por John John Florence, nas Fiji por Taj Burrow e em Teahupoo por Julian Wilson, sempre na segunda ronda. Curiosidade para o facto de ter sido Adriano de Souza a vencê-lo em todos os heats desse ano na ronda inaugural. Ainda assim, voltou à carga no WQS nesse mesmo ano e venceu um 6 estrelas em Newcastle, perdendo para Tiago Pires nas meias-finais em Lanzarote, num campeonato também 6 estrelas que Saca venceu. Terminou o ano no 33.º posto, novamente apenas um lugar abaixo do cut e a apenas 210 pontos da qualificação.

    O que poderia acontecer mais a Willian Cardoso? Não seria já “azar” suficiente? Não. Em 2013, mesmo sem ter resultados fortes no circuito de qualificação, voltou a bater na trave, ficando no 34.º posto do ranking do WQS, a dois lugares da qualificação. Uma posição que se justifica pelo brilharete que, entretanto, conseguiu em Bells Beach, naquela que foi até hoje a sua maior demonstração de força entre a elite mundial. Alcançou um brilhante 5.º posto na icónica etapa australiana – só foi travado nos quartos-de-final pelo finalista vencido Nat Young - e pelo meio eliminou Kelly Slater na 3.ª ronda. Ainda assim, não foi o suficiente para atingir o objetivo que tanto procurava. Também porque nas outras duas etapas disputadas no CT não conseguiu avançar heats, sendo eliminado na Gold Coast novamente frente a Taj e em Keramas frente a Medina.

    Em 2014 consegue mais um grande resultado, ao ser finalista vencido do US Open (QS10000), perdendo apenas para um imparável Filipe Toledo, chegando mesmo a aplaudir o compatriota em pleno heat. Terminou o ano no 25.º posto do ranking, já um pouco mais longe de bater da qualificação. A partir daí, já como o atual novo método de qualificação do top 10 implantado, Willian Cardoso começou a cair no ranking. Deixou de vencer provas, em 2015 foi apenas 83.º e no ano passado 65.º, até que este ano perdeu o patrocínio e estava mesmo a pensar no que fazer à carreira, já com 31 anos. O Panda continuava sem vencer, mas os resultados regulares deram-lhe uma nova vida. Sobretudo o segundo posto em Ballito, onde só perdeu para Jordy Smith.

    “Estava sem perspectiva, não sabia o que iria fazer depois de Ballito. O prémio em dinheiro que recebi foi muito bom e agora tenho verba para disputar sem problemas os próximos grandes eventos do WQS. Na verdade, o Ballito Pro criou um objetivo que até então nem existia e me possibilitou correr atrás dele”, disse Willian Cardoso após o sucesso sul-africano, numa entrevista concedida ao site brasileiro “Santa Radical”. Além do 2.º posto e 5.º posto em Ballito e Cascais tem ainda um importante 5.º lugar no QS6000 de Newcastle, na Austrália, a arrancar o ano. Resultados que o deixam no atual 4.º posto do ranking, com 17550 pontos, ali bem perto dos 19 mil que a própria WSL definiu como meta e novamente a olhar de perto para o sonho do World Tour.

    A vantagem de Cardoso para a concorrência é que é o surfista no top 10 com o descarte mais baixo para trocar, com 650 pontos que serão facilmente substituídos nas etapas havaianas – os dois últimos QS10000 da temporada. A contar tem ainda 1050 pontos por ter sido 17.º nos Açores, um local onde tradicionalmente se dá bem. Foi 9.º em 2016, 2014, 2013 e 2012. Isto claro, sem esquecer a vitória na primeira edição, em 2009.

    Considerado muitas vezes um brasileiro com pinta de australiano, Willian Cardoso até sabe voar, mas é no power surf que se impõe. Tem um ataque de backside forte, mas é o carve de frontside que faz mais estragos. Os mais de 90 quilos que pesa não impedem de ser um dos surfistas mais perigosos do WQS, dando-lhe também a alcunha que o acompanha. Quando não está no mar a surfar, o Panda está em terra a andar de skate, onde também tem bastante talento. Além da Praia Brava, na “sua” Santa Catarina, as ondas favoritas de Willian são Jeffreys Bay e Trestles. E quem sabe se não as irá surfar para o ano, caso consiga quebrar de vez o enguiço e tornar-se num dos surfistas mais velhos a estrear-se no World Tour. Desta vez, e finalmente, a tempo inteiro. A resposta será dada em Haleiwa e Sunset Beach – ou até quem sabe no QS3000 brasileiro de Maresias – e uma coisa é certa: Willian Cardoso não quer bater mais uma vez na trave. 

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