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  • O último campeonato do “The Coolest Mayor on Tour”
    18 outubro 2017
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  • António José Correia cessa funções como presidente da Câmara Municipal de Peniche no dia e que arranca o MEO Rip Curl Pro Portugal. Haveria data mais simbólica para o fazer? Fomos falar com o grande impulsionador da capital da onda.
  • Quis o destino, por mera coincidência, mas talvez por justiça divina, que António José Correia deixe oficialmente o cargo de presidente da Câmara de Peniche no dia em que arranca o período de espera do MEO Rip Curl Pro Peniche. O “The Coolest Mayor no Tour” ainda vai marcar presença na conferência de imprensa e depois vai estar no areal, como sempre faz, desde 2009, mas, desta vez, como mero adepto.

    “Vou ser presidente até sexta-feira à noite”, começa por dizer-nos, através de chamada telefónica. “Vou estar na conferência de imprensa [quinta-feira] e no primeiro dia do campeonato. Foi o calendário que assim ditou. O campeonato já estava marcado independentemente das eleições”, justifica.

    É impossível não associar o surf a Peniche e à transformação que o município sofreu a partir da primeira vez que ali recebeu uma etapa do World Tour. Tal como também é impossível não associar “Tó Zé”, como é carinhosamente tratado, ao campeonato em si. É certo que são as ondas que permitem que o melhor surf do Mundo se realize em Supertubos. E depois os surfistas são os principais animadores. Tal como os patrocinadores, que financiam o evento.

    Mas António José Correia também é uma figura incontornável do CT de Peniche. Em 2017 vai viver um ano especial. Sobretudo pelo lado “afetivo”, como faz questão de sublinhar. A lei de limitação de mandatos ditou a sua saída do poder municipal, dando agora lugar a um novo edil. No entanto, antes de sair, teve oportunidade de preparar tudo para a nona edição da etapa penichense do Mundial. A partir de sexta-feira, não sabemos se vai ser melhor ou pior, mas, certamente, que já nada será como dantes.

    “Todas as coisas que fazemos na vida são especiais. Se eu me lembrar do que foi o primeiro campeonato, também foi muito especial porque foi esse primeiro que abriu portas a todos os outros. Este também vai ser muito especial pela forma como estamos a prepará-lo, também vai abrir portas para futuros campeonatos. Todos são especiais à sua maneira. Mas este tem um ingrediente a mais, o do afeto”, confessa-nos o ainda presidente - rótulo que o tempo vai demorar a tirar das nossas conversas.

    Após três mandatos e 12 anos no poder é hora de dar lugar a outro. No entanto, o amor pelo surf não vai terminar. A garantia é dada pelo próprio. “Por ser o último em que vou estar na conferência de imprensa - tivemos que preparar o campeonato e por isso temos legitimidade para tal – torna este especial. Porque de um dia para o outro passarei de uma pessoa que está na parte da organização para alguém que vai estar apenas a acompanhar”, sublinha.

    Obviamente que estarei na praia do primeiro ao último dia, como em anos anteriores, a divertir-me. E se for preciso dar uma ajuda lá estarei. Até porque tenho muitos, muitos amigos por via do surf. O Mick Fanning, o Matt Wilkinson ou o John John, por exemplo. Toda a armada brasileira… Tenho já um jantar marcado com eles, como acontece todos os anos”, explica aquele que um dia sonhou colocar Peniche no mapa do surf mundial. Conseguindo-o.

    São já nove anos a receber os melhores surfistas do Mundo e uma ligação difícil de esquecer. Tudo começou em 2009. Um ano difícil, mas que acabou por ser o primeiro dia do resto da vida de Peniche. “Em 2009 nem sabia se o campeonato ia ficar. Aquela noite… Começar a fazer telefonemas às 6 da manhã para as máquinas virem; às 7 horas já tínhamos brigadas de trabalhadores na praia; a capacidade de resposta que tivemos; depois o dia do tow in no Baleal com o Mick Fanning e o Taylor Knox; aquela terça-feira mágica e dramática, com tubos atrás de tubos, e tudo pronto, logo ali, para socorrer os surfistas. Foi muito especial”, recorda Tó Zé, com emoção à mistura.

    “Em Peniche há um antes de 2009 e um depois de 2009. Mesmo com a crise que tivemos, que até 2013 se fez sentir de forma acentuada. O campeonato acabou por ser uma almofada e abateu essa situação de crise. Não resolveu tudo, mas atenuou. O impacto é, sem dúvida, positivo. Embora nos meus mandatos tenhamos feito muito no domínio da cultura, habitação social, escolas… aquilo que foi mais marcante a nível da propaganda do destino Peniche foi o surf. Não há margem para dúvidas”, sentencia.

    Como se pode quantificar a transformação em Peniche ao longe deste últimos anos? “Quem parar em Peniche vê logo. Vê um hotel refundado, o MH. A razão que levou os investidores a avançar esteve diretamente ligada ao surf. Logo a seguir, na rotunda, a loja bandeira da Rip Curl na Europa. A seguir o Hotel Soleil, que já está com cores diferentes e algumas mudanças. Só nesse bocado dá para ver o investimento privado que foi feito. Se formos para o Baleal, logo à direita fica o CAR, onde as nossas seleções treinam – já agora parabéns à nossa seleção campeã da europa. Se continuarmos é ver aquela avenida, à qual chamo de avenida do surf, com investimentos portugueses e estrangeiros de um lado e de outro. A loja da Janga é um investimento russo. Mais à frente o Surfers Lodge”, enumerou o presidente.

    “Os números que tenho mostram que temos cerca de 500 registos ao nível do alojamento local. Tem um grande impacto em termos da economia local. Vieram ao encontro de uma necessidade que havia e que se verificou em 2009. Num dos inquéritos que fizemos no primeiro campeonato o défice a nível do alojamento foi referido por muitos, pois as pessoas tiveram que ficar muito longe. Podemos falar também da gastronomia. A restauração teve também um impacto forte”, explica-nos António José Correia.

    Antes da saída do poder, António José Correia preparou ainda um plano para tornar Peniche sustentável em termos de turismo de surf. “Há também os serviços que existem à volta desta área, como as escolas de surf, por exemplo, que tiveram um crescimento e que agora, de certa maneira, nos desafia para outras vertentes em termos de intervenção. No site da Câmara está o processo que iniciámos, que é quase como um caderno de encargos para quem agora entrar, se entender que este é o caminho a seguir. Está ali um trabalho feito que permitirá traçar o caminho para termos um destino turístico vivo. Independentemente de quem estiver à frente dos destinos da Câmara, há muito trabalho para ser feito”, refere.

    Obra à parte, apelámos ao espírito saudosista do presidente para saber qual a edição que mais o marcou enquanto adepto de surf. “A de 2011”, responde prontamente. “Em 2009 foi a primeira, mas em 2011 foi uma máquina de ondas. Foi o campeonato mais rápido até hoje. As pessoas queixavam-se de ter sido só três dias. Mas o impacto que esses dias tiveram na reputação e a atenção que gerou no Mundo foi o melhor que poderia ter acontecido. Noutros anos durou mais dias e também foi importante porque os lay days permitem que as pessoas tenham mais tempo para conhecer melhor a zona, até porque há mais atividades para dar a conhecer a região. No entanto, todos recordam esse ano de 2011”, defende Tó Zé.

    Agora, as previsões até apontam para um campeonato que poderá ficar novamente na história. E em Supertubos já “está tudo preparado”. “Estive lá há pouco e está tudo a postos”, garante-nos, antes de deixar uma novidade: “Este ano vamos ter também a tenda do oceano. Também há informação no site da Câmara. O grande lema este ano é ‘por um oceano sem plástico’. Queremos através do surf dar um contributo para o que nós próprios podemos fazer para evitar a poluição do oceano. É o tema que vou lançar este ano”.     

    Foram muitos anos de dedicação extrema e de uma boa disposição que conseguiu perfurar a esfera competitiva. Não há quem fique indiferente a Tó Zé entre a elite mundial. O contributo que António José Correia teve para a evolução do surf em Portugal é reconhecido por todos. Independentemente de cores políticas. Um percurso exemplar, que merece a distinção. Aqui fica a nossa, esperando que o continuemos a ver pelo areal a distribuir sorrisos e saúde. Porque o mandato pode cessar sexta-feira, mas não há limitação de mandatos que lhe tire o título de “coolest mayor on Tour”.

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