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  • Kikas tombou em Trestles. Mas tombou firme
    15 setembro 2017
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  • Frederico Morais terminou no 5.º posto da etapa californiana, após derrota com o número um mundial, resultado que lhe vai garantir a subida no ranking, deixando-o à porta do top 10 do World Tour.
  • Tal como no seu surf, onde muito raramente cai, e ontem provou-o novamente, também na hora da derrota Kikas tomba sempre de pé. O rookie português foi eliminado esta quinta-feira do Hurley Pro Trestles, nos quartos-de-final, terminando a oitava etapa do World Tour 2017 no 5.º posto, mas fê-lo após mais uma prestação de excelência frente a Jordy Smith, que é "só" o número um mundial.

    Kikas fez o gigante sul-africano sofrer no seu próprio quintal – vive na Califórnia e venceu ali no ano passado e em 2014. Chegou mesmo a banalizá-lo durante mais de metade do heat. O melhor Jordy apareceu apenas perto do final da disputa, acabando por conseguir virar a bateria, numa altura em que já ninguém se preparava para surpreender com mais um feito “tomba gigantes” do português.

    Foi ao ataque que Frederico começou o heat, exatamente como gosta de fazer, ignorando quem tinha do outro lado. Ao power que já nos habituou, demonstrou ainda mais confiança e meteu radicalidade nas manobras de finalização. Juntou uma onda de 7,90 pontos a uma de 8,70 pontos que já tinha. O score de 16,60 pontos não chegava para exprimir o domínio que estava a evidenciar, com Jordy a ter numa onda de 8,33, que foi logo a abrir, a sua bengala e estando a precisar de tirar um coelho da cartola, acima de 9 pontos.

    Mas a este nível os heats decidem-se por detalhes. E neste não houve qualquer erro estratégico de Kikas, até porque o surfista de Cascais mostra ser cada vez um dos melhores estrategas do Tour. Houve, sim, uma fração de segundos, após a segunda troca de ondas, que permitiu ao sul-africano regressar primeiro a pico que o português, ficando com a prioridade. E em Trestles isso pode ser fatal, como viria a ser.

    Foi já perto dos últimos cinco minutos que Smith conseguiu apanhar uma onda para espalhar a sua magia. A verdade é que de igual para igual em Trestes, com ondas com a mesma qualidade, Jordy é superior. Não há problema em admiti-lo, porque não é apenas superior a Kikas, é superior a todos – talvez só não seja a John John, veremos… O sul-africano conseguiu registar 9,43 pontos e ficou com 17,76. Depois, até final o mar não colaborou com Kikas e não veio a onda que lhe desse a oportunidade de, pelo menos, tentar virar.

    O claim quase de raiva de Jordy na última onda e o aperto de mão logo após o toque da buzina são os melhores demonstrativos do alívio que o número um mundial sentiu após ultrapassar Frederico, ele que sabia o quão importante este triunfo era para manter a lycra amarela, tal a pressão que John John Florence vem exercendo em Trestles. Foi assim que Kikas caiu. Mais uma vez de pé.

    Média de campeão

    A etapa californiana mostrou-nos mais uma vez um Frederico Morais com prestações incríveis e ao nível dos melhores, com surf de excelência e scores elevados. Apenas nas ondas de consequência das etapas do Pacífico – Fiji e Teahupoo – não o conseguiu fazer, mostrando ser esse um pouco o seu calcanhar de Aquiles, a melhorar para 2018. Mas em Trestles conseguiu atingir o 14.º triunfo em heats no WCT nesta temporada, dos 28 que já realizou. Ou seja, uma percentagem de eficácia de 50 por cento.

    Após mais quatro heats em alto nível, Kikas terminou a prestação no Hurley Pro Trestles com uma média global de 14,16 pontos nos 28 heats já disputados. Será muito? Pouco? Olhando para os outros atletas do WCT apenas vemos um bem acima deste registo: o campeão mundial e ET John John Florence, com 16,51. Todos os outros candidatos, campeões e nomes de destaque estão na casa dos 14 pontos, tal como Frederico. Ora vejamos:

    John John Florence - 16,51

    Filipe Toledo - 14,70

    Gabriel Medina - 14,52

    Adriano de Sousa - 14,48

    Julian Wilson - 14,40

    Jeremy Flores - 14,37

    Jordy Smith - 14,20

    Frederico Morais - 14,16

    Owen Wright - 14,07

    Ace Buchan - 14,07

    Fanning - 14,06

    Nos 28 heats já disputados, Kikas conseguiu ficar por 14 vezes acima da casa dos 15 pontos, sendo que uma delas foi na casa dos 18 e outras duas já dentro dos 19 pontos. Apenas por quatro vezes ficou abaixo dos 10 pontos e outras quatro entre os 10 e os 13 pontos. Dessa forma, apenas sete surfistas conseguem melhor média que o português – não fosse o score de 3,40 na ronda inaugural de Margaret River e ainda estaria mais acima. Embora isto seja apenas uma amostra performativa, que não corresponde depois ao que se passa no ranking.

    Por exemplo, Matt Wilkinson, que chegou à Califórnia no 3.º lugar do ranking, apresenta uma média somente na casa dos 13 pontos. Joel Parkinson, que está à frente de Kikas no ranking, está na casa dos 12 pontos. E Jeremy Flores, que era 21.º à entrada para este evento, tem uma das melhores médias entre todos, o que pode provar que por vezes os surfistas dependem muito da sorte e do azar para chegar ao sucesso.

    Por exemplo, nas oito eliminações que sofreu no WCT de 2017, Frederico Morais conseguiu fazer um score acima de 15 pontos em quatro deles, sendo que noutra ficou à porta, nos 14,50. Kikas chegou mesmo a perder um heat com 17,73 pontos, na final em J-Bay, frente a Toledo. Quanto a nomes… Slater, Toledo, Julian Wilson, por duas vezes, e Jordy, agora, foram os “carrascos” do português. Depois há Ace Buchan e Caio Ibelli, o rookie do ano passado. A única nódoa no pano, digamos assim, foi a derrota para Nat Young na 2.ª ronda em Teahupoo, com apenas 8,93 pontos. Algo que já esquecemos, depois de tantas alegrias que nos tem dado.

    Eliminações:

    11,17, frente a Slater, na Gold Coast
    15,50, frente a Ace Buchan, em Margaret River
    14,50, frente a Caio Ibelli, em Bells Beach
    16,13, frente a Julian Wilson, no Rio de Janeiro
    10,20, frente a Julian Wilson, nas Fiji
    17,73, frente a Toledo, em J-Bay
    8,93, frente a Nat Young, em Teahupoo
    16,60, frente a Jordy, em Trestles

    Resumindo, eis a prova de que para fazer tombar Kikas é preciso suar muito, muito mesmo. Um ano de estreia que tem sido de sonho e que ainda pode trazer mais alegrias. Com o 5.º posto em Trestles, Frederico já sabe que vai subir no ranking. De 14.º irá, pelo menos, para 13.º, esperando ainda pelas prestações de Ace Buchan e Jeremy Flores. Se o australiano perder nas meias-finais com Jordy Smith e se o francês não vencer o evento, Kikas consegue mesmo subir ao 11.º posto do ranking, ficando apenas a 50 pontos do top 10, que será fechado por Connor O’Leary, o grande rival de Kikas na luta pelo título do ano.

    Luta a dois

    Embora com muitas surpresas pelo caminho, este evento tem sido marcado por um ritmo de parada e resposta entre Jordy Smith e John John Florence, que só foi interrompido pelo adiantar da hora. Quando o evento retomar esta sexta-feira, para o dia final, Florence ainda tem de enfrentar Flores nos quartos-de-final, com o grande rival a já estar instalado nas meias-finais, onde tem pela frente o surpreendente Ace Buchan, que tem destruído de backside e que travou Adriano nos quartos-de-final.

    A verdade é que Trestles veio mostrar que a luta pelo título será, certamente, entre Jordy e John John. Dificilmente alguém conseguirá intrometer-se neste ritmo binário. Mas o havaiano ainda poderá ter de sofrer muito para assaltar a liderança já neste evento. Não só por Jordy competir praticamente em casa, mas porque, caso elimine o francês, poderá ter de marcar duelo com Filipe Toledo nas meias-finais, se este passar por Kanoa Igarashi no último heat dos quartos-de-final. Contudo, cuidado com o jovem norte-americano, que esteve imparável no dia de ontem, ao limpar Fanning e Julian Wilson. Por isso, contem com ele até para a discussão do triunfo final.

    Nova líder feminina

    Também a prova feminina esteve na água e faça-se justiça à qualidade da ação. As melhores surfistas do Mundo deram espetáculo, também com algumas surpresas à mistura e autênticas finais antecipadas pelo caminho. Por exemplo, a líder mundial Tyler Wright caiu logo na 4.ª ronda, mas frente à seis vezes campeã mundial Stephanie Gilmore. E se Gilmore poderia ficar com o estatuto de principal favorita à vtória, isso foi desmentido com a derrota para a brasileira Silvana Lima nos quartos-de-final.

    Quem também caiu nos quartos-de-final foi a havaiana e tricampeã mundial Carissa Moore, num heat onde Lakey Peterson rebentou a escala, conseguindo um score de 19,57 pontos. Agora, Lakey enfrenta Silvana na luta por um lugar na final. Outra das grandes surpresas foi a australiana Keely Andrew, que está nas meias-finais depois de bater Sage Erickson nos quartos-de-final.

    Nas meias-finais Andrew vai enfrentar Courtney Conlogue que, sem dar muito nas vistas, conseguiu ser a única candidata ao título a permanecer em prova. Um resultado que permitiu à norte-americana assumir a liderança virtual do ranking, restando saber se sairá de Trestles com uma vantagem mais alargada sobre a concorrência. A luta pelo título feminino está ao rubro e o próximo capítulo será em… Portugal.

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