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  • Do Porto a Sydney. E tudo Teresa mudou no surf feminino nacional!
    08 junho 2022
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  • Fotografia
    WSL
  • Fonte
    João Vasco Nunes
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  • Teresa conseguiu, aos 22 anos, a maior conquista internacional da história do surf feminino nacional ao vencer a segunda etapa do Circuito Challenger Series.
  • O calendário dizia-nos que estávamos no 18.º dia do mês de Abril do ano 2013. O relógio já marcava uma hora bem adiantada. Sobretudo porque o combinado era arrancar de Lisboa às 21 horas, rumo ao Porto, numa viagem que se previa longa, noite dentro. Como já era habitual por aquela altura, a hora de saída da redação esticava e o combinado com o Diogo já falhava. Ainda assim, decidimos não arrancar logo e passar primeiro por um Restaurante Asiático, algures em Alvalade. Viajar de barriga vazia é que não!

    Naquele ano o jornal havia tido a brilhante ideia de fazer uma parceria com a irreverente Liga Moche – atual Liga MEO Surf – para ter cobertura o ano inteiro, em todas as etapas. Algo que aceitei com grande entusiasmo, nem que isso significasse tirar férias entre parcos 15 dias a que os “velhos” e nada saudosos recibos verdes tinham direito… para ir trabalhar. O facto de o palco da reportagem ser na praia, levava, por aquela época, muitos a desdenharem da função. Logo não havia legitimidade para reclamar sequer esses dias. Eram férias em trabalho. Algo a que me fui habituando com os anos…

    Depois de jantarmos por conta de outrem, lá arrancámos rumo ao Norte. O Diogo já com hotel marcado. Por outro lado, eu ainda sem saber onde ficar, pois o jornal havia esquecido essa parte logística. A viagem demorou mais de duas horas. Não pelo trânsito, praticamente inexistente. A verdade é que uma reunião com o Diogo era sempre motivo de colocar a conversa em dia sobre tudo o que envolvia o surf, desde novidades, rumores, curiosidades e também projeções futuras. Na verdade, honra lhe seja feita, foi ele que durante anos me tirou as muitas dúvidas que foram surgindo no processo de especialização à modalidade. Um dos mais talentosos profissionais que o surf nacional não soube decorar – e que, apercebi-me recentemente, foi aproveitado por uma das maiores marcas do meio a nível internacional. Abraço, Diogo!

    Nessa noite, o tema de conversa centrou-se no surf feminino português. Sobretudo nos poucos recursos, nos fracos ou praticamente inexistentes resultados fora de portas e de uma mão cheia de nada que parecia ser o futuro do surf nacional. Por essa altura, tínhamos apenas Carina Duarte a correr o WQS. Dentro de portas, Francisca Santos e Maria Abecasis, ainda que ativas nessa temporada, começavam a abrandar as suas outrora promissoras carreiras e pouco restava.

    A conclusão era fácil de tirar. O surf feminino nacional estava condenado a agoniar num futuro próximo. E ambos concordávamos com isso. Pelo meio ainda surgiu um nome que começava a dar nas vistas e a circular nas bocas de todos. Uma pequena surfista que na etapa inaugural dessa Liga Moche 2013 tinha ido à final com apenas 13 anos. Contudo, ainda era cedo para antecipar algo risonho para a pequena Teresa. É certo que o talento estava lá, mas perante o estado atual das coisas no surf nacional, mandava-nos a precaução ter cuidado com projeções exageradas.

    Só para contextualizar, a pequena surfista tinha competido pela primeira vez na Liga em 2012, três anos depois de experimentar o surf. Na primeira etapa que fez conseguiu logo um 5.º lugar. Falamos de uma época em que não havia fase woman-on-woman e que as finais eram a quatro surfistas. Portanto, Teresa tinha conseguido estrear-se com umas meias-finais. Resultado que repetiu de forma meticulosa em todas as etapas desse ano. Com nomes como Joana Rocha ainda pelo meio.

    Os números eram um bom cartão-de-visita. A final na Caparica, semanas antes, comprovavam isso mesmo. O hype começava a crescer, mas preferíamos ter cautela. Na etapa inaugural, obviamente que o desempenho da pequena surfista não me passou despercebido e consegui guardar um cantinho das duas páginas destinadas a cada etapa para falar da grande surpresa que começava a surgir. A chuva caía com frequência, num dia em que Francisco Alves venceu a primeira e única etapa da carreira no circuito nacional, após uma final frente a Frederico Morais. Tivemos de fazer a rápida entrevista no “contentor” de imprensa, onde a tímida surfista ia respondendo com envergonhados “sim” e “não”, sendo difícil extrair-lhe mais que isso. O que era compreensível pela tenra idade.

    Voltemos à viagem e desculpem esta curva mais alargada. Entre argumentos e projeções lá chegámos ao Porto. O hotel estava cheio e tive de desenrascar-me porque faltavam meia dúzia de horas para a primeira chamada do Sumol Porto Pro. Foram três dias de sol que passaram rápido. Com a principal memória a ser a de uma jovem surfista a subir ao mais alto lugar do pódio. Teresa Bonvalot. O nome começava ali a firmar-se na galeria das surfistas de topo nacionais. Mas com clara tendência para extrapolar as nossas fronteiras. Teresa não só venceu essa etapa, com apenas 13 anos de idade, como dominou toda a concorrência. E pelo meio ainda teve tempo de ir à Expression Session quase completar um aéreo, deixando tudo e todos de mãos na cabeça.

    Mandava a tradição que uma pequena coluna das duas páginas especiais dedicadas a cada etapa tivesse um pequeno artigo de opinião. Na realidade, uma mistura de poucas frases com constatações óbvias, pois o espaço não dava para mais. Nessa segunda-feira, enquanto pensava o que abordar, dei por mim a encontrar a resposta ao dilema que apanhou boleia comigo e com o Diogo para cima. Perante aquilo que parecia ser um futuro tão negro, a nossa resposta começava a ser dada três dias depois. O título desse ensaio de artigo de opinião foi uma trivialidade qualquer como “O primeiro dia do resto da vida do surf feminino português”. Coisa banal, mas que nem eu calculava que quase 10 anos depois estivesse tão certa.

    De lá para cá Teresa venceu praticamente tudo o que havia para vencer. Bateu recordes, quebrou barreiras e chegou onde poucos esperavam que fosse possível quando recuamos 10 anos no tempo. Colecionou títulos. Abrandou a certa altura. Mas voltou mais forte, fazendo todos acreditar mais do que nunca que estamos a muito pouco de ter a primeira surfista portuguesa no Circuito Mundial. O triunfo em Sydney só foi surpresa para os mais desatentos ou menos crentes. A confiança no surf de Teresa é quase cega por parte da comunidade do surf nacional e basta circular pelos eventos para perceber que todos sussurram e pensam o mesmo: “A Teresa vai lá chegar. É este ano!” Talvez só não o digam em voz alta para não agoirar.

    Que me desculpem todas as outras figuras incontornáveis que foram trilhando o caminho para a Teresa. Desde as pioneiras, como Té Ayala, Patrícia Lopes ou Teresa Abraços. Até às outras campeãs incontestáveis como Joana Rocha, Maria Abecasis, Francisco Santos e Carina Duarte, que ainda se mantém no ativo. Que me perdoem também as novas gerações, que tanto beneficiaram e souberam acompanhar o nível que a própria foi criando. Não queria centrar isto numa só figura, mas é difícil negar a importância e a transformação que Teresa Bonvalot gerou no surf feminino nacional. São 10 anos que quase valeram por 20, onde chegámos a patamares nunca antes sonhados.

    É provável que me esqueça de algo, perante tantos e enormes feitos. Foram três títulos nacionais, um deles com 14 anos. E só não foram mais por óbvias aspirações internacionais. Foram os dois títulos europeus júnior. O título europeu sénior na última temporada e as constantes vitórias que parecem não abrandar. As medalhas nos Mundiais ISA, júnior e sénior. O nível técnico absurdo. O triunfo na etapa das Challenger Series, naquele que foi o maior triunfo do surf nacional, praticamente a par da vitória de Frederico Morais em Haleiwa. A presença olímpica… E também, verdade seja dita, uma surfista que se tornou numa comunicadora exemplar e que lida como poucos com a imprensa, deixando para trás os dias mais tímidos.  

    São tantas e tantas coisas já superadas. E outras tantas ainda por vir. Com a certeza de que já não serão precisos mais 10 anos para vermos Portugal representado por uma surfista na elite do surf mundial. Seja este ano ou no próximo. Seja Teresa ou outra qualquer das tops nacionais que a acompanham. É inevitável constatar novamente o óbvio: Esta miúda transformou por completo o surf nacional! Honra lhe seja feita, como já o fiz ao Diogo. Agora, já não temos cautela com previsões futuras. Já sabemos que podemos lá chegar e já colocámos de lado o triste fado nacional - e eu já não preciso de tirar férias para trabalhar, nem de me preocupar com a estadia nas etapas. Teresa mostrou-nos o caminho e Sydney foi só mais um pequeno passo de um longo trajeto trilhado por este verdadeiro fenómeno. Bem mais longo que aquela viagem até ao Porto.

     

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