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  • Entrevista a Pedro Perestrelo Pinto, Cônsul-Geral em São Francisco (Parte 1): 'O legado português no Havai é notório nas quatro principais ilhas'
    12 maio 2022
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  • Fotografia
    DR/Pedro Perestrelo Pinto
  • Fonte
    Alexandre Melo
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  • Recentemente, o cônsul Pedro Perestrelo Pinto teve a oportunidade de visitar a meca do surf mundial, o Havai. Ali esteve pela primeira vez. Uma viagem marcante a um arquipélago no qual está muito vincada a influência da cultura portuguesa.
  • Desde setembro de 2021 que Pedro Perestrelo Pinto é o Cônsul-Geral de Portugal em São Francisco. Diplomata de carreira, está à frente de um consulado que tem uma área de jurisdição que abrange 13 estados. Toda a Costa Oeste dos Estados Unidos da América, mas também o território que é unanimemente reconhecido como a meca do surf mundial, o Havai.

    Arquipélago que Pedro Perestrelo Pinto teve recentemente a oportunidade de visitar pela primeira vez. Uma viagem que "superou as expectativas". Afinal, sempre sonhou ir aquela latitude "desde miúdo". Agora, em trabalho, o diplomata luso testemunhou de perto a forte influência portuguesa na cultura local. "Impressionou-me imenso a profundidade do nosso legado e a dimensão da comunidade luso-descendente", confidencia. 

    E como Pedro Perestrelo Pinto pratica surf nos tempos de lazer, o seu home break é a Praia Grande, também houve espaço na rigorosa agenda para colocar o pé na prancha junto de um dos grandes ícones do surf de ondas grandes à escala planetária e percorrer todas aquelas ondas idílicas, que nos fazem sonhar.

    Por tudo isto e muito mais, o Beachcam esteve à conversa com Pedro Perestrelo Pinto. Uma extensa entrevista. Nesta primeira parte, abordamos o trabalho que desenvolve o Cônsul-Geral de Portugal em São Francisco, as sensações vividas em território havaiano e como se expressa a cultura portuguesa naquele estado norte-americano.

    Beachcam (BC) - Em primeiro lugar, como surgiu a possibilidade de tornar-se Cônsul-Geral de Portugal em São Francisco?

    Pedro Perestrelo Pinto (PPP) - Como diplomata de carreira e funcionário dos Ministério dos Negócios Estrangeiros, estive colocado na Missão de Portugal nas Nações Unidas, em Nova Iorque, e na Representação de Portugal junto da União Europeia, em Bruxelas. Quando estava a terminar a colocação em Bruxelas, depois da presidência portuguesa do Conselho da UE, a chefia do Consulado-Geral em São Francisco era o posto que mais me interessava entre os que estavam na rotação anual diplomática. Fiquei muito contente por ser nomeado porque, para além de aos 16 anos ter ficado marcado por um verão que passei na Califórnia, este posto conjuga diversas valências estimulantes: uma enorme comunidade portuguesa, grande relevância económica e substancial potencial cultural. A Califórnia é 'Portugal on steroids' (Portugal em esteroides). Tem muitas semelhanças – clima, paisagem, ligação ao mar, agricultura ou multiculturalismo - em versão XL.

    BC - Que tipo de trabalho desenvolve o Cônsul em termos de responsabilidade pela Costa Oeste dos Estados Unidos (incluindo o Havai)?

    PPP - Em síntese, o objetivo é servir os portugueses e elevar o perfil de Portugal nesta região dos Estados Unidos. A jurisdição deste consulado abrange 13 estados e vai desde o Montana ao Havai, mas 90% do trabalho é na Califórnia, onde está concentrada a comunidade portuguesa nesta região e que em termos económicos seria a 5ª economia do mundo, se fosse um país independente.

    A primeira prioridade é prestar serviço consular aos portugueses que vivem nesta região (renovação de documentos, processos de obtenção de nacionalidade, etc) e representar Portugal nas iniciativas das muitas organizações luso-americanas que há nesta costa. Muitos em Portugal não têm noção, mas a presença portuguesa na Califórnia é impressionante e resultou de várias vagas entre meados do século XIX e os anos 60 do século passado. É o estado dos Estados Unidos com mais portugueses e luso-americanos. São cerca de 350 mil. Estão bem integrados, são muito empreendedores e tem relevância económica e política. Por exemplo, o Comendador Manuel Vieira, conhecido como o “Rei da Batata Doce”, é um dos maiores produtores mundiais deste alimento, e temos em Washington D.C dois (até há pouco três) congressistas luso-descendentes eleitos pela Califórnia. Há portugueses e “halls” portugueses por toda a Califórnia.

    A segunda prioridade é económica: atrair investimento para Portugal e promover exportações portuguesas para cá. Em larga medida, é em Silicon Valley que se escreve o futuro e Portugal tem créditos e talento na área tecnológica. Temos tido investimentos muito relevantes em Portugal oriundos da Califórnia, da biotecnologia à agricultura, passando pelo imobiliário.

    A terceira prioridade é promover a língua e a cultura portuguesa. Há 27 escolas na Califórnia que ensinam português, mas há margem de progressão, pelos luso-descendentes e pelo interesse crescente que a nossa língua tem tido para os americanos. Portugal está cada vez mais no radar dos californianos e o voo direto da TAP para São Francisco encurtou a distância.

    BC - Recentemente, esteve de visita ao Havai. Esta foi a primeira vez que teve a oportunidade de visitar o arquipélago? 

    PPP - Foi a primeira vez e superou as expetativas. Como qualquer surfista, sonhava ir ao Havai desde miúdo. Quis o destino que lá fosse em trabalho. É um sítio com ótima energia e um ritmo próprio. Honolulu é um centro urbano à parte, mas no North Shore, no resto de Oahu e nas outras ilhas há menos construção e turistas do que pensava. A beleza e a diversidade da natureza são marcantes. Como português, impressionou-me imenso a profundidade do nosso legado e a dimensão da comunidade luso-descendente. É algo singular, que merece ser reconhecido e valorizado em Portugal.

    BC - No arquipélago do Havai, existe uma presença bem vincada da cultura portuguesa. Como podemos ver a influência e as ligações com Portugal?

    PPP - A presença portuguesa no Havai é impressionante. Estima-se que 20% dos havaianos tenham ascendência portuguesa. Ou seja, um em cada cinco havaianos terá ascendência portuguesa. Por exemplo, os surfistas Seth Moniz, Malia Manuel ou o Fred Hemmings (um dos pais do surf moderno). Os primeiros chegaram na primeira metade do século XIX para a caça da baleia. No entanto, a grande vaga foi entre 1878 e 1913, em que mais de 20 mil portugueses, sobretudo oriundos da Madeira e dos Açores foram trabalhar para plantações de cana de açúcar no Havai. Historicamente os 'portugueses-havaianos' são muito respeitados e até hoje elogiados pela sua ética de trabalho, humildade, austeridade e sentido de família. Trouxeram uma influência cultural que está omnipresente no Havai. Da música, através do 'ukulele', cuja origem é o braguinha (um tipo de cavaquinho), à gastronomia, com o pão doce e as malassadas. O pequeno-almoço do McDonald's no Havai é 'portuguese sausage' (salsicha portuguesa), que é a nossa linguiça. Uma das primeiras saídas da autoestrada do aeroporto de Honolulu é a 'Lusitana Street', um entre muitos nomes de ruas alusivos a Portugal. É comovente ver as igrejas e os antigos cemitérios portugueses com a nossa bandeira hasteada.

    Os descendentes dos emigrantes portugueses contam histórias incríveis dos seus avós. Muitos foram para o Havai sem saber ler e, fruto da sua capacidade de trabalho, chegaram a 'lunas' (chefes de plantação). Como sabiam andar a cavalo, muitos também se tornaram 'paniolos', que são os cowboys havaianos. Quem leu a obra 'Barbarian Days' (Dias Bárbaros), de William Finnegan, terá notado que, logo nas primeiras páginas, quando ele descreve a cena social e étnica da escola no Havai, os portugueses eram os únicos ocidentais ou “brancos” que não eram chamados 'haole', o termo pejorativo havaiano para quem vem de fora. Isso demonstra bem a capacidade de integração que os portugueses tiveram no Havai, como temos em geral em qualquer parte do mundo.

    BC - Existe alguma ilha do arquipélago onde essa presença é mais notada?

    PPP - O legado português é notório nas quatro principais ilhas. A comunidade luso-havaiana está mais organizada em Oahu, em Maui e na Big Island. Em Kauai não tanto. Em número total, a presença será maior em Oahu e proporcionalmente na Big Island. Em todas há 'portugalidade' à vista: casas com nomes portugueses e luso-descendentes a desempenhar cargos políticos. Por exemplo, o Mayor de Maui, Mike Vitorino.

    BC - Nesta fase, como estão as relações bilaterais entre Portugal e o Havai?

    PPP - O pano de fundo é excelente. A face mais visível é a comunidade luso-descendente, com as diversas associações locais. E o legado cultural também é marcante. Os Açores tem o estatuto de 'estado irmão' do Havai e a Madeira também o terá em breve. São laços simbólicos que podem abrir a porta a maior cooperação, por exemplo através de intercâmbios e partilhas de experiências, dadas as semelhanças insulares e a relevância comum da atividade turística.

    BC - Que outro tipo de ligação entre Portugal e o Havai pode ser fomentada e ainda melhor explorada?

    PPP - Sobretudo por causa dos luso-descendentes, há um forte interesse havaiano em Portugal. Muitos querem conhecer a terra dos avós ou trisavós. E para os surfistas a notoriedade da Nazaré veio colocar ainda mais Portugal no mapa. Há potencial turístico nos dois sentidos. A distância dificulta relações comerciais, mas identifiquei algumas oportunidades. Por exemplo, a 'Kanile’a Ukulele Factory', da família Souza, tem aumentado imenso as exportações para a Europa e gostaria de ter um importador em Portugal. Simultaneamente, o mais reconhecido designer de 'Aloha shirts', Sig Zane, lançou uma coleção de camisas de flanela portuguesa e está interessado em ter um fornecedor de Portugal.

    BC - Como vê a procura dos portugueses por este destino? Tem potencial para crescer mais? E como isso poderá ser esbatido na nova lei que Oahu se prepara para promulgar de estadia mínima de 90 dias para o aluguer de alojamento local?

    PPP - O Havai é a meca do surf, por isso é natural que muitos surfistas portugueses lá queiram ir. O voo da TAP para São Francisco facilita porque em dois voos, de 12 mais 5 horas, chega-se de Lisboa a Honolulu. O turismo é a principal atividade económica do Havai e, pós-pandemia, recuperou em número de visitantes, mas não em receita, devido à quebra dos turistas japoneses, o que motiva o interesse havaiano em diversificar a origem de turistas.

    Há algum tempo que os havaianos estão preocupados com o efeito no tecido residencial local da subida de preços, resultante dos alugueres de curta-duração através de plataformas online. A recente alteração legislativa, que procura equilibrar os interesses turísticos e residenciais, entrará em vigor em outubro e só nessa altura perceberemos o real impacto turístico, mas implicará certamente uma adaptação do mercado.

     

     

     

     

     

     

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