Homepage

  • Edmilson Camblé. Quem é o novo representante português na WSL?
    10 maio 2021
    arrow
  • Nic von Rupp e João de Macedo são dois dos grandes apoios de Jéjé em Portugal e o surfista são-tomense destaca a forma como lhe deram a mão quando mais precisava.
  • Um nome entre os 34 representantes portugueses que vão estar em ação a partir de terça-feira no QS3000 de Santa Cruz salta à vista. Edmilson Camblé. Quem, perguntam vocês? É natural que nunca tenham ouvido falar, pois tratar-se do nome verdadeiro de Jéjé Vidal, talentoso surfista são-tomense, que se mudou para Portugal há vários anos. A história de Jéjé começou em São Tomé, quando era frequentemente apelidado de melhor surfista local pelos vários portugueses que por lá faziam missão. Aprendeu a surfar em tábuas de madeira, como todos os outros colegas, e só mais tarde se foi adaptando ao material técnico e às pranchas usadas enviadas de Portugal.

    Na adolescência veio testar-se a Portugal, de forma a poder “estagiar” com os surfistas portugueses. Gostou a aproveitou a oportunidade para, mais tarde, vir definitivamente para o nosso país. Por cá tem estudado e feito muitas amizades com o seu jeito afável e sorriso fácil. Tem tido a ajuda de muitas pessoas e, agora, tenta finalmente cumprir o sonho de competir.

    Está há alguns anos a tentar obter a nacionalidade portuguesa para poder competir na Liga MEO Surf, mas a burocracia tem sido uma forte barreira. Enquanto isso, na WSL conseguiu inscrever-se numa prova, optando pela bandeira portuguesa. No entanto, não esquece as origens, onde é visto como um Gabriel Medina para os conterrâneos. É que Jéjé, ou Edmilson, como queiram, vai ser o primeiro são-tomense da história a competir em provas da WSL. “Apesar de ir competir por Portugal, represento sempre o meu país, que amo muito. Mas como agora vai existir um circuito regional e como não estou no continente africano, vou competir por Portugal de forma a contar para as provas que cá se realizam”, sublinha

    Surpreendido pelo nosso telefonema, Jéjé admitiu que ainda nem sequer sabia que tinha conseguido entrar na prova, necessitando agora de passar à fase seguinte: todo o processo logístico que implica a deslocação para Santa Cruz. “Vai ser uma experiência muito boa”, admite-nos, entre sorrisos. “Já não compito há muito tempo, já nem sei bem como é essa sensação. Continuo a surfar e a treinar, mas sou o meu próprio treinador. Sou um pouco autodidata”, confessa-nos Jéjé.

    "Vou tentar ficar calmo, porque acima de tudo quero divertir-me. Não vou para o campeonato para me chatear. Vou tentar aprender com os outros surfistas e com os meus erros e aproveitar o ambiente".

    “Estou com poucas pranchas no momento, mas estou a procurar uma marca que me apoie. Já estava a tentar há algum tempo entrar em provas e finalmente consegui. Embora não esteja com o equipamento adequado, vai ser uma sensação incrível só estar presente. Espero conseguir soltar o meu surf, sem expectativa altas. Vou tentar ficar calmo, porque acima de tudo quero divertir-me. Não vou para o campeonato para me chatear. Vou tentar aprender com os outros surfistas e com os meus erros e aproveitar o ambiente. Vai ser uma grande oportunidade e só posso agradecer a quem me ajudou a inscrever. Vai ser um privilégio e quero agarrar esta oportunidade como se fosse a última”, garante o surfista são-tomense.

    Apesar de já há vários anos tentar competir em Portugal, Jéjé Vidal explica que essa vontade tem esbarrado numa lei da Federação. “Já desde de 2019 que quero muito competir na Liga MEO Surf, mas há um artigo da Federação Portuguesa de Surf que impede que isso aconteça. Por azar não tenho familiares com nacionalidade portuguesa, o que acaba por impedir que possa entrar na prova, embora não concorde com essa lei”, frisa.

    Recentemente, Jéjé reforçou um dos mais fortes projetos a brotar no surf nacional, o do Sporting Clube de Portugal. Um apoio que vem provar o ecletismo, mas também o humanismo do emblema lisboeta. “Foram as pessoas do Sporting que me procuraram. A responsável disse-me que gostavam de ter alguém como eu na equipa, que já me seguia há algum tempo e que já tinham ouvido falar muito de mim”, afirma.

    A Deeply também se juntou aos apoios do jovem surfista, o que lhe deu um balão de oxigénio para alimentar o sonho da competição. “Recentemente ganhei o patrocínio da Deeply, que foi algo que me deu ainda mais vontade de continuar, porque significa que há algum que aposta e valoriza o que faço, mesmo sem ainda fazer competição. Competir é caro e eu não tenho meio para fazê-lo. Mas quem sabe um dia conseguirei marcar presença regular em campeonatos”, admite.

    Patrocínios à parte, Jéjé deixa uma palavra de agradecimento às duas referências que tem dentro e fora de água. Nic von Rupp e João de Macedo são dois dos grandes apoios de Jéjé em Portugal e o surfista são-tomense destaca a forma como lhe deram a mão quando mais precisava. “Passo muito tempo com o Nicolau e ele é uma inspiração para mim. Tanto ele como o João Macedo dão-me sempre motivação para acreditar que se trabalhar vou conseguir chegar às minhas metas. Dão-me muitos conselhos, que tento colocar em prática para chegar mais longe”, conta-nos.

    "Tive a oportunidade de fixar-me na Praia Grande, mesmo à beira da praia. Foi uma sorte e um privilégio ter tido a ajuda deles. Se fosse uma pessoa do interior, por exemplo, o surf tinha acabado para mim".

    “Após uma altura em que tive problemas, foram o João de Macedo e os pais e também o Nic von Rupp que mais me apoiaram e ajudaram. Qualquer coisa que precise eles ajudam-me. Tive a oportunidade de fixar-me na Praia Grande, mesmo à beira da praia. Foi uma sorte e um privilégio ter tido a ajuda deles. Se fosse uma pessoa do interior, por exemplo, o surf tinha acabado para mim. Mas assim tenho surfado quase todos os dias, treinando muito e observado todos os surfistas com que surfo”, assegura.

    Jéjé recorda ainda o início da aventura portuguesa e a forma como deixou a terra para correr atrás do sonho. “Em 2017 o Paulo Pichel e o Miguel Ribeiro, que são dois enormes amigos, estavam a terminar a missão lá em São Tomé e tinham de voltar para Portugal. Eles gostavam muito de mim e quiseram ajudar-me. Foram ter com a minha mãe e propuseram trazer-me para Portugal, pagando tudo, desde a estadia à escola, de forma a darem-me a oportunidade de ter um futuro melhor. A minha mãe confiava neles, porque já tinha vindo uns meses fazer um estágio com a APS e não tinha acontecido nada de mal, por isso deixou-me vir”, relembra.

    “Na altura fui estudar para uma escola profissional na Ericeira. Conseguiram inscrever-me e pagaram-me os três anos da escola. Só que o curso que estava a frequentar não era homologado e a diretora da escola fugiu com o dinheiro todo e deixou-me sem nada. Fiquei sozinho, sem curso e sem qualquer apoio. Foi uma altura difícil, mas houve um amigo que me estendeu a mão e emprestou-me uma casa para viver”, lamenta.

    "Estou a tirar um curso de animação e turismo náutico e faltam apenas dois meses para acabar. Tem sido uma experiência incrível, uma maravilha". 

    Foi então que João de Macedo surgiu na vida de Jéjé e tudo se começou a endireitar. De regresso aos estudos, o jovem surfista pretende fixar-se no nosso país e encontrar um trabalho ligado ao sítio que lhe deu tudo até hoje, o mar. “Tive um contacto de uma pessoa da Câmara de Cascais que me ajudou a colocar numa escola de Carcavelos. Estou a tirar um curso de animação e turismo náutico e faltam apenas dois meses para acabar. Tem sido uma experiência incrível, uma maravilha. Sinto que tive uma evolução enorme e, mesmo nem sendo sempre fácil, tive sempre alguém a dar-me oportunidades. Viver cá sem a família não é fácil, mas já me habituei um pouco”, aponta.

    “O meu objetivo, agora, é terminar o curso para ficar por cá. Mas para isso acontecer preciso de encontrar um trabalho e descontar para a segurança social. Essa é a minha prioridade. Vou tentar encontrar algo ligado ao mar”, assegura-nos, antes de lembrar o orgulho que é ser um exemplo para os amigos são-tomenses. “Os miúdos de São Tomé olham para mim como as pessoas aqui olham para o Medina ou o John John. Tento sempre enviar algo para lá, pranchas, material técnico, qualquer coisa. Sinto-me bem em ajudá-los e procurar sempre representar o meu país da melhor forma”, sustenta.

    É já amanhã que Jéjé entra na água pela primeira vez numa prova internacional, frente aos melhores surfistas europeus. Com a bandeira portuguesa a acompanhá-lo, mas com São Tomé sempre no coração, aconteça o que acontecer Jéjé Vidal, ou neste caso, Edmilson Camblé, já está a fazer história. O resto ele sabe fazer, sempre com o seu sorriso único no rosto.

     

    Para acompanhar e confirmar live, os dados sobre o estado do mar, podes usufruir da nossa rede de livecams e reports preparada para essa finalidade.

    Visita a nossa Loja Online, encontras tudo o que precisas para elevar o teu nível de surf!

    Segue o Beachcam.pt no Instagram