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  • De onde apareceste, Lourenço Katzenstein!? (ENTREVISTA)
    18 fevereiro 2021
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  • Fotografia
    VanLife Productions
  • Fonte
    Redação
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  • Foi apenas a partir dos 20 anos que o surfista da Ericeira se começou a dedicar mais à carreira de surfista. E desde então tem sido sempre a crescer!
  • Tem nome difícil de pronunciar, mas fácil de ser decorado. Apesar de juntar a nacionalidade alemã à portuguesa, nasceu e cresceu na Ericeira. Rodeado de ondas perfeitas e no seio de uma família surfista [É filho de Miguel Katzenstein, um dos criadores da Semente Surfboards]. “Comecei a surfar muito novo, aos 4 anos. Sou surfista de segunda geração, algo que na altura era muito raro em Portugal”, começa por dizer-nos Lourenço Katzenstein.

    “Uma das primeiras memórias que tenho é a de ver o meu pai sair de casa muito cedo para ir surfar. Lembro-me de pensar que queria ser como ele e de o acompanhar. Felizmente, a minha mãe percebeu isso e colocou-me – a mim e à minha irmã - a surfar muito cedo. Sempre coloquei o surf à frente de tudo, com exceção dos estudos, porque os meus pais não permitiam isso. Aliás, quando tinha más notas um dos castigos era ficar sem surfar”, recorda Lourenço, com gargalhadas nostálgicas à mistura.

    "O que me guia são as ondas perfeitas. E como não via isso na competição, acabava por não me motivar a ir por essa via"

    O contexto era propício, mas Lourenço nunca se deslumbrou muito com uma carreira profissional nas ondas. Competitivo por natureza, a paixão pelas ondas perfeitas sempre superou o apelo do mundo das licras e das pontuações. “Não gosto de perder e sou muito competitivo. Mas o que me guia são as ondas perfeitas. E como não via isso na competição, acabava por não me motivar a ir por essa via”, explica-nos.

    “Atualmente já é um pouco diferente, mas os campeonatos ainda não puxam muito por mim. Se falarmos daquela etapa do circuito nacional em que estavam tubos perfeitos em Carcavelos [2019]… eu queria ir, mas acabei por não conseguir inscrever-me. Simplesmente não me quero ver forçado a fazer algo que não gosto. O surf para mim é uma paixão e não uma obrigação. O mesmo acontece na Nazaré, quando lá estão muitos surfistas cheios de pica para bater o recorde, mesmo com 30 metros e vento onshore. Nem sequer saio da Ericeira…”, atira.

    A adolescência trouxe-lhe a descoberta por ondas grandes e mutantes, lá do outro lado do planeta, na Austrália ou no Taiti. Desde esse primeiro contacto, através de vídeos de surf, que nunca mais largou o sonho. “Desde miúdo que sempre fiquei impressionado com os filmes em slabs australianos ou em Teahupoo. O filme que mais me marcou foi o ‘Solid’, da Billabong. Lembro-me de pensar: ‘Que ondas são estas? Eu quero fazer aquilo!’ Com a idade comecei a pesquisar mais na internet e comecei a perceber que todas essas ondas eram australianas, assim como os surfistas. Os slab hunters australianos, como o Mark Matthews, por exemplo, ainda hoje são a minha referência. São chargers incríveis, mas que muita gente não conhece”, frisa Lourenço. 

    Foto: Pedro Miranda

    “Uma das primeiras memórias de ondas grandes que tenho, nem eram bem ondas grandes. Nós é que éramos muito pequenos. Foi quando treinava com o Pyrrait. Estavam cerca de dois metros aqui na Ericeira, mas perfeito. Queríamos muito entrar, embora os adultos estivessem a dizer para não irmos. Acabei por entrar com o Pyrrait, que nos levava com pés de pato. Entrou um set bem grande e ele só me disse para agarrar a prancha. Fez o bico de pato comigo e eu lembro-me de agarrar a prancha com muita força e depois quando vim acima olhar à volta e ver que todos os outros surfistas que lá estavam, que eram mais velhos, não tinham conseguido segurar as pranchas. Foi aí que percebi que estava mesmo grande. Foi uma experiência que não me deu medo, mas, sim, adrenalina”, confessa-nos. 

    Surfou, surfou e surfou. De inverno e de verão, aproveitando o melhor – e também o pior - que há numa Reserva Mundial de Surf. “Quando comecei a surfar melhor o meu pai começou a levar-me para Peniche e Carcavelos, quando as condições aqui não eram as melhores. Mas tenho a sorte de viver à frente da praia e passava o verão a surfar aqui, mesmo que estivesse onshore gigante. Lembro-me de chegar a vestir o fato em casa e ir a correr para a matinal na Pedra Branca”, relembra.

    Foi para a faculdade e continuou a surfar. E foi no fim de ser homem feito que decidiu fazer carreira do surf. Além de perseguir tubos e ondulações perfeitas, atirou-se como um felino às ondas grandes. Por estes dias, aos 25 anos, Lourenço é um dos nomes em maior destaque no surf nacional, marcando inúmeras vezes presença nas sessões da Praia do Norte ou naqueles dias épicos nos Coxos. O seu nome começa a ecoar cada vez mais no meio do surf nacional. Katzenstein. Onde há ondas de qualidade, lá está ele… Lourenço Katzenstein. Provando dessa mesma forma ser um dos surfistas mais completos e, simultaneamente, mais subestimados da sua geração - ou underrated, se preferirem estrangeirismos.

    Contudo, até aos seus 20 anos, altura em que decidiu apostar a sério nas ondas grandes e no resgate, poucos registos existem do jovem Lourenço. Nem uma foto conseguiu nas já extintas revistas de surf portuguesas. E nestes anos todos apenas um clip – e que clip! – em nome próprio para apresentar aos seguidores. Num meio em que os futuros campeões são identificados quase desde nascença, colecionando apoios e seguidores desde tenra idade, a pergunta que se coloca é só uma: De onde apareceste, Lourenço Katzenstein?

    "Um dia cruzei-me com a Ana Sarmento e ela perguntou-me o que é que me tinha acontecido? Éramos uns miúdos e de repente disse que me via a surfar altas ondas e a partir a louça"

    “Curiosamente, houve muita gente conhecida que me perguntou isso depois de ver algumas coisas que fui lançando. Há uma história com a Ana Sarmento, que é minha amiga de infância e com quem cresci a surfar. Quando ela foi para a faculdade ficámos sem surfar juntos regularmente durante alguns anos. Quando acabei a faculdade é quando começam a surgir mais coisas minhas em destaque. Um dia cruzei-me com a Ana e ela perguntou-me o que é que me tinha acontecido? Éramos uns miúdos e de repente disse que me via a surfar altas ondas e a partir a louça”, conta.

    Os talentos tardios são casos muito raros numa indústria onde os apoios são imprescindíveis para se sonhar desde cedo com o profissionalismo. E é também isso que dá um toque especial de curiosidade a esta história. Reservado? Pouca imprensa? Vítima do afastamento do mundo das competições? Remetido apenas à Ericeira e longe do centro estratégico do surf nacional? À primeira vista estas podem parecer razões suficientes para um surfista tão talentoso andar tanto tempo escondido. Mas há outra realidade no Mundo de Lourenço. Uma receita que mistura modéstia e uma grande dose de perfecionismo. E, dessa forma, se explica muito do trajeto de Lourenço.

    “Penso que houve falta de orientação quando era mais novo. Como o meu pai não fez carreira de surf, apesar de me apoiar, nunca me incentivou a seguir esta carreira. Talvez se tivesse crescido ou surfado mais em Cascais as coisas pudessem ter sido diferentes, por alguém poder reparar em mim. Na realidade, nem pensava nisso. Nunca me vi como surfista profissional. Só quando comecei a gostar de ondas grandes é que comecei a pensar mais nessa profissionalização”, admite Lourenço.

    Foto: Henrique Casinhas

    Mas o sucesso no Mundo das ondas grandes não é fruto de um trabalho individual. Lourenço faz equipa com Francisco Roque de Pinho e ambos têm uma ligação forte e confiança mútua que ajuda bastante na hora decisiva. “Fazemos equipa já há alguns anos e dou-me super bem com ele. É uma grande motivação fazer equipa com o Francisco. Quando saio de uma onda ele já sabe o que tem de fazer. Temos uma ligação muito boa. Recentemente estive a rebocar a Justine Dupont, que é uma das melhores big riders da atualidade e uma das minhas referências, mas não foi tão fácil como se fosse com o Francisco. Pela minha postura ou por um sinal ele já sabe o que é necessário fazer”, assegura-nos.

    Feitos e sonhos à parte, a mente do surfista jagoz está já posta no próximo desafio, na próxima ondulação perfeita. Como a sessão que prepara, enquanto conversa connosco. O talento e coragem que demonstra no mar estão ao nível da facilidade para conversar e contar histórias. Das muitas que já viveu. Mas também das inúmeras que estão para chegar. Das ondas mais assustadoras que já surfou, colocando a Cave, onde, depois de muita observação e estudo sobre a onda, já se aventurou duas vezes, ou a Peralta a par da Praia do Norte. Ou das que quer mesmo um dia surfar, com a mutante australiana The Right no topo da lista, por ser um surfista regular. Sempre com exigência e a perfeição em ponto de mira, claro está.

    “Temos que fazer sempre a gestão do risco. Considero que há dois tipos de surfistas. Os que fazem essa gestão de risco e que arriscam para ter determinada recompensa e aqueles que não têm qualquer noção e estão-se a borrifar. Ambos apanham altas ondas. Mas pela experiência que tenho, os primeiros, que são os mais focados e atentos, são os melhores. Esse é o exemplo que tento seguir. E a verdade é que se não me sentir em segurança para surfar num determinado dia não vou surfar”, sublinha Lourenço, que teve Ramon Laureano como grande mentor.

    Apesar de gostar de medir e avaliar sempre o risco, o que o torna num surfista muito controlado e seguro, já viveu duas situações mais complicadas na Nazaré. Uma delas controlada, outra nem por isso. “No primeiro susto que apanhei estava a estrear um colete, numa sessão em que estávamos poucos na água. Não tinha conseguido entrar na primeira onda e tentámos entrar logo na seguinte, sem ter tempo para avaliar a onda. Pensava que a onda era triangular, mas era um close out gigante. Percebi que ia levar com a onda, mas estava calmo porque tinha treinado para aquilo. Entretanto, estava há tanto tempo debaixo de água que percebi que o colete estava vazio. Nadei como nunca tinha feito na vida para chegar acima. Acabei por levar com outra onda em cima, fui novamente muito fundo. Às tantas já só estava a levar com espumas grandes, mas já tinha levado tanta pancada que estava exausto. E foi aí que consegui puxar outro cordel do colete, percebendo que os primeiros, simplesmente, não tinham funcionado. O nadador salvador ajudou-me a sair da água porque já estava zonzo, mas senti sempre que estava controlado, porque era para aquilo que treinava”, assegura.

    “A segunda situação foi de total descontrolo. Ia apanhar uma onda incrível por trás do pico. No meio disto há um surfista a entrar pela frente da onda. O Ramon teve de puxar pela marcha atrás para travar e quase bateu no surfista. A moto de água acabou por voar. Eu não desci a onda, saí por cima, mas fiquei um pouco sem ver devido ao offshore. Segundos depois percebo que está a vir uma montanha de água gigante e eu estou mesmo na zona em frente às rochas da falésia. Tive de nadar pela minha vida. Passei a primeira onda mesmo por um triz. O Francisco Roque de Pinho apercebeu-se e conseguiu resgatar-me. Olhei para trás e o lip da terceira onda bateu mesmo onde eu estava. Se tivesse levado com essa onda tinha ido parar às rochas e nem quero pensar no que poderia ter acontecido. É algo que não quero que se repita e até fui falar com os surfistas em causa. Foi a única vez que pensei que poderia mesmo morrer e por causa de uma estupidez que não posso controlar. Já nem quis surfar mais nesse dia, mas insistiram tanto ao final da sessão, que acabei por surfar com uma prancha emprestada e apanhei a onda com que ganhei o prémio desse ano de Maior Onda do EDP Mar Sem Fim”, revela.

    Quanto ao futuro, Lourenço não tem dúvida do caminho a seguir nem dos sonhos a cumprir. Aliás, a visita aos slabs australianos já esteve perto de acontecer e, como em tudo neste quotidiano que vivemos, os planos acabaram por ser travados pela pandemia. “Já trabalhei para ir viver para lá um ano, mas acabou por não acontecer, porque comecei o projeto de reabrir a escola de surf da Semente e acabei por ter de colocar essa viagem em pausa. A minha irmã também foi para a Austrália e já lá a fui visitar, mas acabei por não surfar. Estava tudo planeado, não fosse o Covid aparecer. Sei que vai acontecer, só resta perceber quando”, assevera.

    Quanto ao melhor big rider da atualidade, Lourenço nem hesita em dar o trono ao havaiano Kai Lenny. “Está noutro patamar! A única vez que estive dentro de água com ele estava um swell incrível. Fomos os primeiros a entrar na água e já estávamos a surfar há algum tempo. Entretanto, num resgate ao Francisco Roque de Pinho, a moto deixou de funcionar e tivemos de sair pela areia. Vi o Kai a partir a louça toda, mas, infelizmente, vi da areia, porque estávamos à espera que o trator viesse buscar a moto de água. Quando o vi dar um aéreo 360 nem estava a acreditar no que estava a ver. A primeira vez pensei que era mentira. A seguir deu dois na mesma onda. É brutal o à vontade que ele tem. Já tentei dar aqueles 360 umas quantas vezes e não correu nada bem”, brinca.

    "Foi preciso as revistas de surf portuguesas acabarem e eu ter ido à Irlanda para conseguir ter uma foto, mas numa revista internacional..."

    “O meu objetivo passa por profissionalizar-me a 100 por cento nas ondas grandes, porque atualmente tenho de ter outros trabalhos para sustentar isto. Gostava de estar a monitorizar swells e arrancar em missão, quer seja na Austrália, Teahupoo ou Puerto Escondio, por exemplo”, admite Lourenço, que nos últimos anos já teve uma aventura na Irlanda na companhia do bodyboarder Daniel Fonseca. Uma viagem que, curiosamente, lhe rendeu uma foto na famosa revista britânica de surf “Carve Magazine”. “Durante tantos anos sonhei em ter uma foto numa revista portuguesa e foi preciso elas acabarem e eu ter ido à Irlanda para conseguir ter uma foto, mas numa revista internacional”, desabafa.

    Mais recentemente deu nas vistas na Madeira. É ele o protagonista de uma foto que se tornou viral, onde um surfista parece descer uma onda gigante na Ponta do Pargo. Lourenço foi dos últimos a partilhar o momento nas redes sociais. E fê-lo num ato de modéstia, mais para ressalvar que tudo se resumia a uma questão de perspetiva. “A onda não era muito grande, era uma onda de inside. Só que a foto é tirada de um local muito alto, com cerca de 500 metros de altura, que dá aquele efeito. Curiosamente, nesse dia surfei uma onda maior, que, segundo os fotógrafos, deveria ter entre 8 a 10 metros”, aponta.

    “Uma das razões porque as pessoas não ouviram falar de mim mais cedo ou por não ser tão mediático, está relacionado com o facto de ser muito perfecionista e achar sempre que nada está bom o suficiente para partilhar. Isto até acaba por ser um defeito. Nivelo tudo pela perfeição. Eu comparo-me, por exemplo, com o Kai Lenny ou com os australianos. Por isso, se acho que não faço as coisas tão bem como eles, acho que não devo partilhar. Tenho horas e horas de filmagens e gigas de fotografias que nunca viram a luz do dia, simplesmente porque acho que não estão nada de especial. Encaro aquilo como se fosse uma vergonha, comparando com o que vejo essas referências fazer. Mesmo o único clip que lancei não o queria partilhar, estava inseguro quanto à qualidade. Achava que eram só umas ondas normais… Sou muito autocrítico”, remata Lourenço.

    Há quem o alcunhe de “Gato”. Certamente, derivado do início do seu sobrenome: “Katz”. Forte, ágil e de sentidos apurados, Lourenço faz jus a isso mesmo. Mas preferimos não abreviar e chamá-lo pela totalidade. Lourenço Katzenstein. O rookie que é um homem feito. O perfecionista. O talentoso surfista que tardou em aparecer. Mas que parece destinado à ribalta dos anos vindouros. O nome que, mais cedo ou mais tarde, todos vão decorar. Katzenstein!

     

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