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  • Francisco Rodrigues: 'A Liga MEO Surf foi um agente positivo de normalidade' (Entrevista)
    23 novembro 2020
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  • O presidente da Associação Nacional de Surfistas diz que ficou demonstrado factualmente que é 'seguro fazer campeonatos de surf' em tempo de pandemia.
  • Tal como os restantes desportos, o surf ficou virado do avesso com o rebentar da pandemia do novo coronavírus. Muitas das competições previstas para este ano de 2020, com o World Championship Tour à cabeça, tiveram de ser canceladas ou noutros casos adiadas para mais tarde.

    Em Portugal, graças ao esforço da Associação Nacional de Surfistas (ANS) com o apoio da Federação Portuguesa de Surf (FPS) e um vasto rol de outras entidades, foi possível colocar na água, debaixo de rigorosos procedimentos sanitários e sem alterações ao formato, a 10ª edição da Liga MEO Surf. Uma Liga bem especial não só pela edição assinalada, mas também pelo delicado contexto pandémico em que foi realizada.

    Todo o trabalho desenvolvido fez com que a Liga MEO Surf de 2020 fosse em termos mundiais a primeira competição de surf a ir para a água após a explosão da pandemia de Covid-19. Estávamos na manhã do dia 19 de junho e com o verão a bater à porta, quando arrancou o Allianz Figueira Pro, na Praia do Cabedelo.

    A competição que atribui os títulos máximos do surf nacional contou com mais quatro etapas e em nenhuma delas foi registado qualquer caso de infeção pela doença do Covid-19, seja de atletas ou elementos da organização. Uma demonstração factual de que é "seguro fazer campeonatos de surf" em tempo de pandemia, diz-nos Francisco Simões Rodrigues, presidente da ANS.

    Em conversa com o MEO Beachcam, 'Xiquilim' fez um balanço desta época que jamais será esquecida e revelou que já "trabalha em força", junto da sua equipa e demais parceiros, na preparação da Liga MEO Surf de 2021, que deverá contar novamente com cinco etapas no seu calendário.

    MEO Beachcam (BC) - Terminada a Liga MEO Surf de 2020, qual o balanço que é feito desta temporada?

    Francisco Simões Rodrigues (FSR) - O balanço é naturalmente muito positivo. Começou com o desafio de arrancar com o primeiro campeonato de surf em todo o mundo, onde foi preciso alinhar patrocinadores, municípios e as regras sanitárias com a FPS. O licenciamento das provas foi realmente muito complexo face a anos anteriores não só pelo facto do quadro geral sanitário estar permanentemente a sofrer alterações como também porque cada Câmara Municipal e capitanias tinham também as suas especificidades próprias. No final de tudo, é de sublinhar que não tivemos qualquer caso ou incidência, demonstrando-se assim que é factualmente seguro fazer campeonatos de surf. A Liga MEO Surf de 2020 cumpriu integralmente a sua agenda desportiva e o seu formato de circuito, trouxe de volta a vida profissionalmente activa a uma série de profissionais dos eventos, repôs rendimentos e retorno aos patrocinadores dos surfistas em competição e foi, com toda a certeza, um agente positivo de normalidade. Por fim, não menos importante, agradecer a todos os surfistas por terem eles também colaborado bastante e renovar os parabéns aos campeões nacionais de 2020,Teresa Bonvalot e Frederico Morais.

    BC - O facto da Liga ter decorrido dentro da normalidade possível, apesar do contexto pandémico, faz desta situação a maior vitória do Francisco e de toda a equipa que trabalha consigo desde que estão à frente da ANS?

    FSR - Não gosto muito de particularizar. Existe uma vontade e esforço de uma vasta equipa de pessoas e empresas. Se tudo começa dentro da ANS e as conversas com os patrocinadores, logo de seguida devemos agradecer à FPS pelo trabalho desenvolvido para que fosse possível termos as medidas sanitárias ajustadas à nossa realidade. Passando da preparação à sua execução, entram em cena uma série de equipas de parceiros e fornecedores sob coordenação da FIRE, assim como os surfistas e suas equipas técnicas. Enfim, é uma vitória de todos! E também uma mensagem sólida do nosso país para toda a comunidade de surf a nível global.

    BC - Olhando para os outros países europeus com tradições no surf, nenhum deles conseguiu realizar um circuito neste ano. Em algum momento chegou a pensar que a Liga MEO Surf de 2020 teria de se realizar num outro formato ou simplesmente não ir para a água?

    FSR - É muito fácil falar agora que tudo já passou. Mas acreditem: a nossa vontade nunca foi de cancelar nem alterar formatos. Desde o adiamento do Allianz Ericeira Pro em março até ao tocar da buzina inicial do Allianz Figueira Pro, mantivemo-nos sempre vigilantes perante o evoluir da situação pandémica. Fomos falando internamente e também com algumas pessoas próximas do centro de decisão política. As circunstâncias portuguesas permitiram a realização da nossa Liga. Tenho pena que nos outros países europeus tal não tenha sido possível. Mas a nível mundial, já outras nações avançaram com os seus circuitos como é o caso do Brasil. No final, não podemos perder de vista que os surfistas também pagam os seus impostos e precisam da sua actividade profissional, onde as competições desempenham um papel fundamental.

    BC - Durante toda a temporada qual foi o momento mais difícil com que teve de lidar?

    FSR - Existem muitos momentos que exigiram mais do que outros. Mas posso destacar a 1ª etapa, o Allianz Figueira Pro, pelo desafio que foi realizar a prova entre o Cabedelo e a Murtinheira, a forte ajuda da Câmara Municipal da Figueira da Foz e relação com a Capitania local, a elasticidade logística que foi imposta a todas as equipas (particularmente à produção e broadcast) e ainda à gestão "ao minuto" com o mar a subir ao longo do último dia e, set a set, esperar pela mudança de praia num domingo à tarde. Foi a primeira competição de surf em todo o mundo após a explosão da pandemia. Testou-nos a todos ao limite. Acabou com as entrevistas aos campeões da etapa já de noite! Posso ainda referenciar o licenciamento da maioria das provas onde, com a colaboração de toda a equipa e parceiros, foi possível cumprir com as condições que nos foram sendo impostas e ser ágeis sempre que assim era exigido. Mudamos provas de local e fizemos licenciamentos de várias provas ao mesmo tempo. Fez tudo parte!

    BC - Acredita que o facto da competição ter decorrido sem problemas, enquanto outros campeonato nacionais de outras modalidades tiveram de ser suspensos, pode despertar mais marcas para o potencial do surf e consequente investimento no mesmo?

    FSR - Estamos num mundo actual que se rege pela incerteza, que continua e não sabemos muito bem até quando ditará a realidade. Neste momento, já estamos a trabalhar em força na Liga MEO Surf de 2021. O surf, enquanto modalidade, já provou que é uma óptima solução para as marcas apostarem e fazer as suas activações de posicionamento junto do seu público. Se já o era antes da pandemia, mais e melhor agora se demonstra.

    BC - Até que ponto o sucesso da Liga MEO Surf de 2020 neste contexto pandémico pode servir de exemplo para as provas internacionais da World Surf League, agora que está prestes a começar o Mundial? Os responsáveis da WSL pediram-lhe conselhos sobre que práticas a adotar?

    FSR - São realidades e escalas completamente distintas. É natural que nós falamos bastante com a equipa portuguesa da WSL. Partilhamos desafios, informação e soluções. É também muito importante para o surf em Portugal que a prova de exibição na Ericeira tenha corrido bem. Agora que o WCT vai voltar, só podemos desejar a maior das sortes porque todos, a nível mundial, precisamos que a principal competição do mundo aconteça e retome a sua normalidade. Uma palavra de agradecimento, em nome de Frederico Morais, à equipa mundial da WSL (com o apoio da portuguesa) que compreendeu a sua realidade profissional e permitiu que ele tivesse competido em pleno na Liga MEO Surf  de 2020, por via um "waiver" à exclusividade com a WSL que todos os surfistas do WCT têm. E claro, desejar grande sucesso ao Kikas, agora junto dos melhores do mundo, o seu palco natural e oficial.

    BC - Encerrada mais uma época, certamente que o foco já está na temporada de 2021. O podemos esperar em termos de calendário? Vamos continuar a ter cinco etapas?

    FSR - Estamos a trabalhar no tema. Nesta fase, importa conhecer o calendário internacional, fechar patrocinadores e alinhar tudo com a multiplicidade de agendas desportivas dos nossos surfistas. A Liga tem cinco etapas desde 2012 e assim deverá permanecer em 2021.

    BC - Depois de vários anos em que em que manteve um calendário quase inalterado e levando o surf de Norte a Sul qual a possibilidade de a Liga MEO Surf poder ir, por exemplo, até às ilhas?

    FSR - É amplamente conhecido que é uma vontade nossa. E tanto na Madeira como nos Açores, temos os canais de contacto estabelecidos. Por várias razões, que vão um pouco além das nossas vontades próprias, ainda não possível concretizar nestes tempos recentes de Liga MEO Surf. Porém, recorde-se que já existiram várias edições da principal competição nacional de surf em ambas as regiões autónomas. Não foi uma nem duas vezes. O processo de preparação da temporada de 2021 ainda está numa fase inicial, pelo que é cedo para confirmar o quer que seja.

    BC - A indefinição quanto aos calendários da WSL para 2021, nomeadamente a etapa de Peniche e eventos nacionais dos circuitos de qualificação, está a prejudicar a calendarização das etapas?

    FSR - A temporada de 2021 tem a incerteza dos tempos correntes acrescendo a reestruturação do calendário internacional. O regime de qualificação também se alterou, onde os surfistas portugueses só vão poder pontuar através das competições europeias, sendo que a participação em eventos QS fora da Europa só terá motivações monetárias e de rodagem competitiva. A fase mais importante, os Challengers, só acontece a partir de setembro. É normal haver alterações aqui e ali, mas acredito que tudo ficará estabilizado nas próximas semanas e, como fazemos sempre, vamos trabalhar com os responsáveis relevantes neste processo de forma a que a Liga MEO Surf de 2021 possa também estabelecer as suas datas.

    BC - Após um ciclo de 10 anos em que tem existido sempre uma superação das expectativas e em que este circuito se tem afirmado cada vez mais importante, ainda consegue vislumbrar mais espaço para evolução num futuro a longo prazo?

    FSR - Tem sido um caminho interessante. O mais importante é ver a geração dos mais novos a vincar ainda mais o desafio imposto aos mais experientes. Em 2020, vimos Afonso Antunes muito forte nas primeiras etapas, mas não conseguiu manter o ritmo na segunda fase do ano, designadamente no Renault Porto Pro e no Bom Petisco Cascais Pro. Ainda assim foi um forte sinal do que aí vem. Por seu turno, o nosso compromisso com a sustentabilidade mantém-se intacto, algo que tem reforçado a agenda das etapas e também a relevância material da Liga MEO Surf. Procuramos também ser uma plataforma de competição consciente e solidária com o reconhecimento do legado de todos aqueles que foram amigos do surf em Portugal.

    BC - Em termos pessoais, ainda há muito para dar à ANS e ainda se vê com força para muitos mais mandatos?

    FSR - Em 2020, em sede de Assembleia Geral da ANS, decidimos adiar para o ano seguinte as eleições para os órgãos sociais da ANS, tal como muitas federações desportivas estão a fazer. A decisão de continuar é para ser tomada para o ano. No entanto, embora tenha outras actividades profissionais, posso afirmar que tenho conseguido compatibilizar tudo e assim manter-me no projecto da Associação Nacional de Surfistas, algo que gosto muito e que é bastante interessante.

    BC - Numa altura em que a pandemia teima em não dar descanso, que mensagem final pretende deixar à comunidade do surf em Portugal?

    FSR - A mensagem mais importante é para os decisores políticos: deixem-nos surfar em paz. O surf é um desporto individual e praticado no mar, meio este que é provavelmente onde melhor podemos estar. Por seu turno, mesmo a nível do sistema imunitário, com o sol e o mar, saímos todos mais reforçados. Acrescento ainda as necessidades profissionais dos surfistas assim como a saúde mental de todos aqueles que fazem do surf a sua actividade desportiva.

     

     

     

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    Jorge Matreno/ANSurfistas
  • Fonte
    Alexandre Melo
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