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  • Zé Ferreira e o surf como terapia para mudar vidas (Entrevista)
    14 abril 2020
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    Wave by Wave
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    Redação
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  • São já quatro anos a mudar vidas de jovens em risco com a ajuda do surf e do oceano através da Wave by Wave.
  • Foi vice-campeão nacional em 2016, chegou a andar bem dentro do top 100 mundial e a competir na Triple Crown havaiana e tinha um dos estilos mais admirados do surf nacional. Apesar de todo o talento que desde cedo mostrou, foi a meio de uma carreira promissora, mas incerta, que decidiu mudar o rumo e apanhar outra onda que não a dos pontos e das licras. Tinha 25 anos quando sentiu que algo não fazia sentido, decidindo afastar-se das competições. No entanto, nunca deixou o surf para trás e demorou pouco até encontrar um rumo para o futuro. Inspirado numa experiência que teve na juventude na África do Sul, olhou para o mar como um veículo terapêutico e decidiu iniciar um projeto mais altruísta. São já quatro anos a mudar vidas de jovens em risco com a ajuda do surf e do oceano através da Wave by Wave.

    Tudo começou em 2016, numa altura em que a Wave by Wave era ainda um projeto em construção, iniciado através de campos de verão. Agora, a dimensão é outra, contando já com uma estrutura profissionalizada, composta por técnicos de saúde mental e instrutores de surf. A ação é diária com os cerca de 80 jovens a quem tentam dar uma outra visão do Mundo através da surf therapy. A Wave by Wave, que tem simultaneamente o cunho da psicóloga clínica Ema Shaw Evangelista, representou uma mudança radical na vida de um jovem talentoso que passava os dias a ser avaliado por aquilo que fazia na água e, curiosamente, faz dessa mudança na vida dos outros o ponto essencial de intervenção. E nem este período atípico que o Mundo vive fez abrandar o trabalho desenvolvido por esta equipa.

    Fomos conversar com Zé Ferreira sobre esta nova realidade da sua vida, como começou, como se desenvolveu e como se vê no futuro.

    Fim da carreira de surfista

    É algo que está intrinsecamente ligado ao início da Wave by Wave. Deixei de me identificar com a competição. Não foi de repente. Foram vários fatores a determinar isso, um deles foi perceber que não era esse estilo de vida que queria para a minha vida. Estava a fazer algo completamente centrado em mim e olhava para o meu futuro e tudo era incerto, sobretudo porque os patrocínios e o mercado do surf estava complicado para me trazer estabilidade e criar uma estrutura para a vida. Não é fácil passar a vida a lutar por uma coisa que é uma competição direta com outras pessoas. Percebi que havia outras coisas com as quais me identificava mais. No entanto, quando deixei a competição percebi que não sabia o que havia de fazer da vida. Tinha despesas e tinha de pensar na vida. Tinha sido vice-campeão nacional de surf e estava a dar aulas a 20 euros à hora e tudo isso estava a mexer muito comigo. Cheguei a fazer uma entrevista de trabalho para distribuir águas porque precisava de ganhar uns trocos. Lembro-me de estar para começar nesse trabalho e pensar no que estava a fazer. Tinha contactos e valências trazidas do surf, por isso tinha de tentar fazer outras coisas. Comecei a pensar em algo e foi aí que conheci a Ema e começámos a pensar de que forma o surf therapy poderia ser adaptado à realidade portuguesa. Na altura também comecei a comentar na Sport TV, que foi muito importante nesta passagem. A partir daí agarrei-me muito à Wave by Wave porque sempre me identifiquei com os valores e a visão do nosso projeto. As coisas andaram muito rápido e ao fim de um ano já tinha um contrato, depois de criarmos uma associação.

    O começo de um novo projeto

    Tudo começou com um projeto de verão, de uma semana. Fundei o projeto com a Ema Evangelista, que é psicóloga. No meio do surf associa-se muito a Wave by Wave a mim, mas isto foi algo criado pelos dois, até porque não sou psicólogo. Rapidamente percebemos o potencial que este tipo de intervenção tem. Em Portugal somos um pouco resistentes a mudanças e reformas a nível macro, mas num nível micro somos bastante abertos e recetivos a coisas novas. Portanto, os nossos parceiros sempre foram muito abertos ao potencial terapêutico que temos nos jovens. Existe a falta de respostas sobretudo no campo da saúde mental e investimento nessa área, que para mim é bastante importante para a saúde pública e funcionamento do nosso sistema. Percebemos que a nossa intervenção fazia sentido e que havia braços abertos para nos receberem, tanto ao nível das populações com quem trabalhamos, como os parceiros que reconheceram algo de valor na nossa intervenção.

    O crescimento desse projeto

    Por vezes confunde-se aquilo que são as IPSS e as organizações de economia social, que acho que é onde nos estamos a posicionar. Sempre nos quisemos posicionar como uma profissão e não como um voluntariado. Acredito que para ter impacto tem de haver continuidade e para haver continuidade tem de haver profissionalismo. Esse foi o caminho que a Wave by Wave começou a fazer e ainda está a fazer. Ainda estamos a passar por algumas dores de crescimento daquilo que é uma empresa. Começámos com uma base de pessoas mais próximas, menos estrutura e responsabilidades, mas as coisas foram progressivamente crescendo à medida que os desafios e os apoios foram surgindo. Penso que demos um salto grande quando fomos desafiados pela Fundação Gulbenkian, pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e pela José de Mello Saúde a fazer um estudo a três anos que nos iria permitir o passo para a profissionalização da nossa estrutura, tendo já várias pessoas contratadas a full-time. A partir daí vieram aquilo que são os desafios normais da gestão de uma empresa.

    Cara conhecida na equipa

    Hoje em dia temos uma equipa composta por seis pessoas a full-time e 12 pessoas a recibos verdes, que passam algumas horas por semana connosco. Já temos uma estrutura profissional. Depois temos um conjunto de pessoas que decidem dar a sua ajuda em regime de voluntariado, mas todas especializadas, ou na área do surf ou da saúde de mental. Atualmente, usamos muitas vezes esse voluntariado para perceber se essas pessoas têm capacidade para no futuro entrar na equipa técnica. Temos pessoas muito importantes para nós e não são profissionais do projeto. Contudo, isso representa uma parte mínima, cerca de 10 por cento da nossa estrutura. Como já disse, para termos uma ação contínua e consistente tem de haver uma base profissional. Uma das pessoas que está no projeto é a Carina Duarte, que foi campeã nacional. Conheço-a há muito tempo por causa dos campeonatos e das seleções. Quando comecei à procura de pessoas com quem me identificasse para o projeto, porque é importante que mesmo os técnicos de surf tenham um perfil que percebam a relação que temos com estes jovens, precisava de alguém com o curso de surf e que visse nela uma mais-valia para o projeto. A Carina foi uma das primeiras pessoas que me veio à cabeça. É professora de surf e tem tido um grande impacto nos miúdos. Também tivemos o João Moisés, que foi meu treinador e esteve connosco durante três anos. Depois, tivemos outros técnicos de surf que foram muito importantes para a construção da identidade da Wave by Wave e que deram muito ao projeto, apesar de já não estarem connosco atualmente.

    A referência

    Quando fui à África do Sul com 18 anos, conheci o Tom Hewitt, que dirige a organização de surf therapy que se chama Surfers Not Street Children. Foi algo que me deixou uma semente, embora tenha acabado por nunca desenvolver nada com isso. Aquilo fez-me sentido organicamente e sempre quis fazer algo mais. Claro que em África este tipo de questões são muito mais complexas, mas em Portugal essa realidade das crianças em risco também é complexa e muitas pessoas não querem olhar para elas, embora tenham um impacto direto ou indireto em muita gente. Existem duas formas de fazer a coisa como surfista: dar a cara e agir. Em termos de dar a cara os surfistas têm um papel exemplar quando existe uma luta e mostram-se sempre disponíveis. Mas o que gostava de ver mais era as pessoas perceberem o que são estes problemas e questões que dificultam a nossa sociedade e que de forma podem ajudar. Existem alguns surfistas que fazem isso em diversas áreas, como por exemplo o Kelly Slater com o aquecimento global ou o Adrian Buchan em termos do papel que tem em questões de desigualdade social, mas a minha grande referência do mundo do surf é mesmo o Tom Hewitt, que não é propriamente um surfista profissional, mas é do meio. Ele faz a diferença e muda vidas, sobretudo com miúdos que são recolhidos da rua muito jovens e passados alguns anos têm um trabalho, uma vida e uma estrutura. É uma lógica boa de se ver. A minha lógica é que as pessoas são as experiências que vivem e alguém que cresce num contexto delicado, vai efetivamente ter experiências mais complicadas. Quando crescer existe uma grande probabilidade de fazer o mesmo. Portanto, o surf em especial tem um papel muito importante em dar apoio e dar uma nova contextualização a essas experiências a que estas pessoas são expostas.

    Efeitos da pandemia

    Trabalhamos com crianças e jovens em risco, que são um segundo grupo de risco nesta crise, embora não sejam mencionados. Quando se fala dos grupos de risco as pessoas associam sempre aos idosos e aos que têm problemas respiratórios e de saúde, mas existem muitos mais grupos de risco. As crianças e jovens que vivem em famílias destruturas e que podem estar a passar por situações traumáticas ou aqueles que estão em casas de acolhimento, que nesta altura veem-se com uma estrutura diferente, são exemplo disso. Como já temos um vínculo com os jovens do projeto, aquilo que temos feito é dar continuidade a esse vínculo, tentando manter acesa a chama da relação, sendo um apoio psicológico e não só com estas crianças. Neste momento estamos a fazer tele campos, tentando recriar pela via digital aquilo que costumamos fazer nos campos que acontecem na praia. Nem sempre é possível devido à falta de meios técnicos ou às dinâmicas das casas de acolhimento, mas estamos a tentar readaptarmo-nos ao momento para que possamos estar em contacto com os nossos miúdos através de várias atividades. Já tivemos conversas com alguns dos miúdos que dizem ter saudades do mar, outros fizeram desenhos do mar ou posts nas redes sociais a demonstrar isso mesmo. Na falta de ir ao mar é que sentimos a real importância dele e penso que estamos todos a passar por isso. Isto é até uma prova do tal efeito terapêutico do mar. Mas como se trata de algo transversal a toda a sociedade, os miúdos percebem o momento e são os primeiros a respeitar e perceber a situação. Muitos deles estão com uma atitude madura em relação ao que se passa.

    O futuro

    Fazemos isto maioritariamente com crianças que não têm recursos para pagar os seus processos de reabilitação, mas acredito que este tipo de intervenção pode impactar qualquer jovem. O mar é terapêutico e acrescentando uma estrutura terapêutica pensada é uma coisa simples, mas que faz sentido para qualquer pessoa. Por isso, esperamos que no futuro possamos seguir por esse caminho, para que isto seja uma coisa mais democratizada, em que o plano de ação sejam todas as crianças e jovens, perdendo este rótulo das crianças em risco. Hoje em dia estou a gerir o projeto a todos os níveis. Infelizmente já não estou a dar aulas de surf, porque o tempo não me permite isso. Estou a aprender muitas coisas e tem sido um crescimento brutal. Estou a criar uma estrutura que quando competia não tinha. Era um bocado “chapa ganha, chapa gasta”, porque fazer uma época no WQS não era nada barato, mesmo não ficando em hotéis e não indo a restaurantes. Agora estou a conseguir fazer isso mesmo, criando uma base sobre a qual possa vir a crescer. A nível profissional com tantas coisas que estou a aprender com a Wave by Wave penso que isso me pode abrir caminhos para outras coisas no futuro. Não sei o que vai acontecer no futuro, mas a Wave by Wave é sempre o primeiro projeto e tem uma marca especial. Não gostava de ficar só com este projeto no futuro, porque gosto muito de desafios e tenho muitos interesses. No entanto, se isso não acontecesse penso que a Wave by Wave tem muito por crescer e trabalho não vai faltar.

     

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