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  • Algas e espinhos na base de medicamentos e próteses
    29 julho 2019
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  • Possibilidades são "inesgotáveis" dizem os investigadores do Norte de Portugal e Galiza.
  • Numa fase em que os oceanos deparam-se com graves problemas, como é o caso do excesso de plástico, e que afectam o seu ecossistema, eis que surge uma encorajadora notícia. 

    Algas, espinhas ou membranas de peixes estão a ser levadas do mar para o laboratório para criar próteses, componentes de medicamentos ou cosméticos, no âmbito de um projeto ibérico.

    O denominado projecto CVMar+i surgiu com o intuito de perceber se a valorização de subprodutos de origem marinha poderia vir a ter impacto no desenvolvimento da indústria farmacêutica, da indústria alimentar e da medicina regenerativa do Norte de Portugal e da região da Galiza.

    Iniciado em Junho de 2017, este projeto ibérico, que integra o Programa de Cooperação INTERREG V-A Espanha-Portugal (POCTEP), tem vários objetivos traçados, mas todos seguem o mesmo princípio: o aproveitamento dos recursos marinhos tirando partido de compostos que, atualmente, representam “possibilidades inesgotáveis por descobrir”.

    Quem o afirma é Tiago Silva, um dos dez investigadores que integram a equipa do 3B’s Research Group da Universidade do Minho, entidade coordenadora do projeto. Em declarações à agência noticiosa Lusa, explicou o quanto o CVMar+i pode vir a ter “impacto na economia real” e “ajudar a desenvolver socioeconomicamente” a região transfronteiriça.

    "A ideia é nós termos colaborações quer entre os grupos portugueses e espanhóis, quer entre a academia e o tecido empresarial, sem haver distinção de geografia ou de áreas de negócio e de trabalho”, disse, adiantando que o objetivo passa também por “fortalecer as empresas e promover o aparecimento de novas empresas que possam explorar novas áreas de negócio”.

    O CvMar+i, financiado em 3,2 milhões de euros, é, segundo Tiago Silva, o resultado da “maturação” das linhas de investigação que têm vindo a ser desenvolvidas dentro desta temática desde 2006 por vários parceiros ibéricos, desde centros de investigação, passando por universidades e até empresas.

    No total, são 17 os parceiros envolvidos nesta colaboração transfronteiriça, que visa o desenvolvimento de 11 linhas de investigação em áreas tão distintas como a medicina regenerativa, a indústria alimentar e a indústria cosmética.

    De acordo com Tiago Silva, o 3B’s Research Group está a trabalhar em três linhas de pesquisa ligadas à medicina regenerativa: na criação de estruturas tridimensionais que podem vir a ser “a nova geração de próteses vivas”, no aproveitamento de polissacarídeos de algas que podem ser utilizados nas forragens para encapsular células (medicamentos) e na verificação de compostos de algas que podem ter atividade anticancerígena.

    É nesta última linha de investigação que surge a colaboração com o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha (CIIMAR) da Universidade do Porto, a entidade responsável por cultivar, extrair e isolar os compostos das microalgas e cianobactérias que podem vir a auxiliar na “luta contra o cancro”.

    Em entrevista à Lusa, o presidente do CIIMAR, Vitor Vasconcelos, adiantou serem já “promissores” os resultados obtidos, esperando vir a ter no final deste projeto “um novo produto desenvolvido a partir de micro-organismos de origem portuguesa”.

    Estes biorrecursos podem ter um impacto extraordinário porque, por um lado, nós temos uma riqueza de diversidade de organismos marinhos que ainda estão pouco estudados e, por outro, podemos vir a descobrir novas moléculas que terão uma valorização económica muito grande”, referiu.

    Além desta linha de investigação, o CIIMAR está a trabalhar no desenvolvimento de “moléculas antibiofilmes”, para travar uma forma física de crescimento de bactérias que leva a infeções difíceis de tratar. Nas indústrias alimentar e marinha, o impacto pode ser significativo.

    É também com o intuito de detetar “a concentração de determinadas espécies químicas” e monitorizar o ambiente que o Centro de Investigação em Química da Universidade do Porto (CIQUP) está a aproveitar as espinhas e membranas de peixes para criar sensores óticos. Até ao momento, os resultados são “bastante promissores”.

    “O objetivo é a preparação de sensores óticos, também chamados de opto-sensores. Neste caso, isto traduz-se em obter membranas que terão um comportamento ótico, ou seja, neste caso, que mudarão de cor ao entrarem em contacto com determinadas espécies químicas e com a concentração dessas espécies químicas”, referiu Manuel Augusto Azenha, um dos coordenadores da investigação.

    Deste projeto ibérico, que termina oficialmente em Dezembro, resultam já vários protótipos – próteses metálicas de “melhor desempenho”, extratos com potencial farmacêutico contra o cancro e compostos bioativos que se vão “mostrando interessantes” para a área alimentar e cosmética e se podem vir a tornar em novos alimentos ou formulações cosméticas.

    Contudo, o objetivo do 3B’s Research Group passa agora por “prolongar por seis meses a extensão” do CVMar+i, adiantou à Lusa Tiago Silva, afirmando que um dos maiores desafios do projeto se prende com o “tamanho reduzido da indústria e empresas biotecnológicas da região”.

    Nós queremos contribuir para o fortalecimento desse investimento, mas é um investimento que é difícil porque depende da quantidade de investimento financeiro associado às empresas ou à sociedade em geral, que na nossa região não é particularmente relevante, mas que nós esperamos conseguir fortalecer”, concluiu.

    Além do 3B’s Research Group, do CIIMAR e do CIQUP, o projeto tem como parceiros nacionais a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, a aStemmatters, a Smart Inovation e a Sarspec.

    Do outro lado da fronteira, o CVMar+i conta com a colaboração da Universidade de Vigo, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Santiago de Compostela, do Instituto de Investigaciones Marinas, do Centro Tecnológico del Mar da Fundação CETMAR, da DevelopBiosystem, da BETA Implants, da Iuvenor Labs e da Bialactis Biotech.

     

     

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