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  • Surf: A melhor e pior coisa que pode acontecer a alguém
    14 agosto 2018
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  • Muitas vezes, o problema não é tanto enquanto se faz surf mas sim, o resto do tempo. O tempo em que não estamos a surfar.
  • Texto de Hugo de Oliveira:

    Fala-se muito dos doentes da bola: aqueles adeptos tão aficionados, ou talvez tão obcecados, que seguem as suas equipas todo o lado, fazendo todos os sacrifícios necessários. Alguns talvez até se endividem por causa disso e certamente que a sua disposição oscila consoante o desempenho do seu clube.

    Será o surf assim tão diferente para quem o pratica?

    Isto não é sobre quão pró cada um de nós é. É indiferente se falamos do rei da praia ou do surfista que vai sempre que pode, porque para ser viciado não é preciso muito. Tanto assim é que das poucas alturas em que não pensamos em surf, é quando o estamos a fazer. Se calhar nesse aspecto é parecido com o sexo. Porque tal como no momento do orgasmo, o momento de surfar a onda é um em que estamos verdadeira e integralmente presentes e unos. E todo o desempenho que conduz a isso, também tal como no sexo, requer a nossa entrega total e incondicional. Provavelmente por o clímax ser incomparável é que é difícil não viver em função disso uma vez experimentado. Felizmente, há mais ondas do que orgasmos, pelo menos para a generalidade das pessoas.

    Muitas vezes, o problema não é tanto enquanto se faz surf mas sim, o resto do tempo. O tempo em que não estamos a surfar porque temos de estar noutro sítio ou a fazer outra coisa qualquer. Como trabalhar.

    Quantas vezes durante um dia de trabalho, o surfista típico consulta o Beachcam só para saber como está o mar? E quantas mais vezes vai ver a previsão do mar? E quantos minutos fica a olhar para a câmara, à espera do zoom no line-up, que às vezes nem sequer existe nesse dia em particular? E quantas não foram as vezes em que se desmarcaram compromissos, se escaparam de encontros de família ou se chegou atrasado ao trabalho para apanhar uma horinha de surf? Ou se calhar meia hora?

    E certamente que já se tornou impossível contar todas as vezes em que, em pleno inverno, as surfadas começaram antes do dia nascer com um frio de rachar, e às vezes com condições bastante menos do que recompensadoras. As mãos a ficar tão frias que nem se consegue abrir o fato e depois demorar um bom par de horas até conseguir ter uma temperatura corporal mais próxima do conforto.

    Simplesmente para nos podermos livrar da ânsia do surf. Porque, geralmente uma má sessão de surf é preferível a ficar o resto do dia a pensar como estavam as ondas e a atrofiar com vontade de entrar na primeira oportunidade que surgir. Porque muitas vezes, essa oportunidade surge frequentemente em condições tão más ou ainda piores do as que se sofreria tendo entrado logo ao primeiro capricho.

    Às tantas parece que é mesmo disso que se trata: do viciado a satisfazer-se com a sua dose. O lado bom é que, em teoria e se descontarmos coisas que podem surgir por falta de cuidado como o ouvido de surfista, as doenças de pele ou as lesões, é um vício que não destrói a vida. Pelo contrário, oferece antes uma perspectiva única sobre o quotidiano.

    Não há assim tantas coisas na vida ao alcance de qualquer um, que como o surf exijam um tipo de dedicação e inteligência que quem não pratica, simplesmente não consegue apreciar e compreender. Isto porque o acto de apanhar ondas é apenas a face visível do surf. Há todo um trabalho de bastidores que é feito e que redunda naqueles segundos em que apanhamos ondas. Trabalhamos para conseguir ter instinto de surfista.

    Esse instinto está presente desde a leitura do mar até à adaptação as condições de cada surfada, não esquecendo também toda a interpretação das previsões para aplicar na praia de eleição de cada surfista, onde há que ponderar a direcção do swell, conjugada com o período e a altura, em articulação com o vento e a maré. E claro, o conhecimento empírico da onda propriamente dita. Da mesma forma, existe todo um aspecto de disciplina e perseverança envolvidos, pois é preciso tempo não só para a surfada mas também para a viagem até ao local, que às vezes pode ser longa.

    E, ao contrário do que se vê na maior parte dos vídeos de surf, há dias em que o surf não corre bem e para muitos de nós, que tem um trabalho e uma família, a janela de oportunidade para surfar é a uma hora específica, independentemente das condições que estiverem. É por isso que muitas vezes se surfa tanto mar muito acima das capacidades, como também ondas de 10 cms. Mas faz tudo parte e quando se sai da água, com o corpo mexido, a pele salgada, um cansaço doce e uma alma literalmente lavada, sente-se que valeu a pena mesmo quando não valeu a pena.

    Porque isto não é apenas um desporto.

     

    Para acompanhar e confirmar live, os dados sobre o estado do mar, pode usufruir da nossa rede de livecams e reports preparada para essa finalidade.

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    Fotos - WAS; Inertia; Chicagoist; Mrforts; Windguru

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