Na atualidade, o magnífico trio Yolanda Hopkins, Francisca Veselko e Teresa Bonvalot são os principais rostos do surf feminino português, com tudo o que têm alcançado nos últimos anos, levando a bandeira nacional a patamares que jamais tinham sido atingidos.
Porém, em cima de todo este êxito, há toda uma nova geração que está a aparecer e a ganhar paulatinamente o seu espaço, tendo a Liga MEO Surf como palco para essa evolução. Uma das novas caras na divisão feminina é a jovem Mafalda Cunha.
Esta época, a surfista de 17 anos (completos há um mês) tem despontado na competição máxima do surf luso, ocupando um surpreendente 10.º lugar do ranking à falta de uma etapa para o fecho do circuito, que já consagrou a amiga Maria Salgado como nova campeã nacional.
O desempenho da jovem surfista lisboeta adquire maior magnitude se atentarmos ao calvário que viveu até ao primeiro trimestre deste ano. Os problemas de saúde sucederam-se, obrigando a longos períodos sem surfar. Há menos de meio ano, Mafalda estava internada. Dar nas vistas com a licra de competição parecia uma miragem e eis que aqui chegamos, com todo um futuro bem radioso pela frente.
Em entrevista ao MEO Beachcam, Mafalda Cunha dá-se a conhecer, falando de tudo aquilo que teve de ultrapassar, mas também dos seus sonhos, cujo maior é representar a Seleção Nacional nos grandes certames. Apesar da tenra idade, sabe bem para onde quer ir nas lides do surf.
Como é que surgiu a tua ligação/paixão pelo surf?
Desde pequenina, o surf foi algo que fez parte da minha vida. Os meus irmãos já faziam surf e o meu pai sempre nos incentivou. Comecei a surfar com 5 anos e rapidamente a paixão cresceu. A partir dos 7 anos comecei a treinar duas vezes por semana e a cada ano que passava treinava mais vezes.
Arquivo Mafalda Cunha
Quando é que decidiste que querias ser competidora?
Não decidi, aconteceu naturalmente. Aos 14 anos, o meu treinador da altura resolveu inscrever-me no Super Groms e alcancei o segundo lugar. Adorei sentir a pressão da competição, senti o 'bichinho da competição'. Adorei vestir e sentir o peso da licra. Na altura, também era ginasta e tomei a decisão de desistir da ginástica para estar focada a 100% no surf. Foi também nesse ano que pedi aos meus pais para mudar de escola para ter mais liberdade de horários e poder treinar mais.
Falaste na escola, como tens conciliado os estudos com o surf?
Com o apoio da UAARE (Unidade de Apoio ao Alto Rendimento na Escola). Sem este apoio era impossível conciliar os estudos com o surf. Além disso, o facto de viver em Lisboa complica um pouco as coisas. Vou e volto, sempre de transportes públicos (elétrico, autocarro e comboio). Portanto, demoro quase duas horas para lá e para cá, sem contar com o tempo do treino. Saio de casa às 8h00 para a escola e vou direta para o treino. A maioria das vezes, chego a casa por volta das 20h00. Chego, tomo banho a mil e janto. Só depois do jantar é que tenho tempo para estudar. Portanto, a minha tática é estar muito atenta nas aulas para reter o máximo de informação. É dar o litro a estudar para aproveitar ao máximo o tempo de estudo.
Vens de uma fase muito difícil. Como foi o facto de teres estado tanto tempo sem surfar devido a sucessivos problemas de saúde?
Foi um ano horrível. Tive uma apendicite e tive de ser operada. Infelizmente, a infeção era pior do que se supunha. Portanto, a operação foi mais complicada e a recuperação mais demorada. Voltei ao surf após mês e meio parada. Foi difícil e estava muito em baixo, tanto fisicamente como mentalmente, mas não deixei que isso atrapalhasse o meu progresso e lutei para ultrapassar essa frustração. Contudo, passado uma semana e meia de ter voltado a surfar, comecei com sintomas estranhos e tive de ir direta às urgências. Foi aí que descobriram que tinha apanhado uma bactéria no hospital. Fui tratada da infeção bacteriana e, quando estava a recuperar, diagnosticaram-me uma infeção viral. Tive de ficar mais dois meses parada. Recomecei a surfar a meio de março e com um campeonato agendado para o início de abril. Todavia, nunca desisti de dar o litro, com muito esforço, sacrifício e a enorme ajuda da minha psicóloga Tatiana trabalhámos este caminho difícil. No fim do dia é a persistência e a dedicação que nos fazem levantar a cabeça.
Arquivo Mafalda Cunha
Perante tudo o que passaste, seres atualmente top 10 nacional está a exceder todas as tuas expectativas?
Está a exceder os meus sonhos, quanto mais as minhas expectativas. Foi um ano tão difícil a nível pessoal e desportivo. Durante todo este tempo, tive a sorte dos meus treinadores (David Raimundo e Nuno Telmo) nunca terem desistido de mim e terem-me ajudado muito a recuperar. Uma enorme ajuda também foram as maravilhosas pranchas que o Hugo Cartaxana fez na SPO e o apoio do meu clube (Associação de Surf da Costa de Caparica), que sempre me apoiou, assim como o Noori Sushi. Nunca duvidaram de mim e nunca me 'abandonaram'. Apoiaram sempre!
Este ano fizeste a estreia no circuito Pro Júnior da World Surf League (WSL). Como foi esse primeiro contacto internacional?
Além de 'coisas más', este ano também teve 'coisas positivas' e novas experiências. O Pro Júnior de Marrocos foi uma delas. Foi uma experiência incrível! Com muito nível na água, tanto no free surf como em competição, foi ótimo para aprender e estar num ambiente incrível e difícil. Infelizmente, não consegui passar o meu heat, que era difícil. No entanto, consegui ficar em terceiro e à frente da francesa Margo Liets, que é uma surfista já experiente no circuito. Para mim, já foi uma mini-vitória. Foi apenas a primeira experiência e ainda tenho muito mais para dar. Isto foi apenas o primeiro de muitos.
Quais as maiores diferenças que sentes entre os campeonatos dos escalões Open e Júnior?
Acho que o nível de surf é muito diferente. No Open, o nível é muito mais elevado. Basta dizer que fiquei num heat com uma atleta olímpica e campeã nacional (Teresa Bonvalot) e uma ex-campeã nacional de Esperanças (Maria Dias). Portanto, o peso da licra aumenta muito. No Open é necessário dar tudo. Temos de estar 100% concentradas e usar todos os conhecimentos que temos dentro de água. Competição é muito mais do que só o surf naqueles 20 minutos.
Arquivo Mafalda Cunha
Que objetivos tens definidos a curto prazo?
A curto prazo, os meus objetivos são por ordem de prioridades: ser convocada para a Equipa Nacional; representar Portugal no Mundial ISA; ficar no top 3 do Junior Tour e no top 5 da Liga MEO Surf. Para alcançar os meus objetivos, estou a contar com muitos treinos na primeira piscina de ondas artificiais para surf em Portugal. Quando tive dificuldades na primeira etapa do Junior Tour, partiu-se a prancha e tive de nadar e correr um quilómetro para reentrar no heat, o pessoal da Surfers Cove foi incrível e enviou-me uma mensagem de apoio, que não esqueço. Além disso, infelizmente nunca tive oportunidade de treinar numa piscina de ondas. Agora, com uma em Portugal, vou lá sempre que puder. Deve ser um sonho ter ondas intermináveis e perfeitas para treinar horas a fio. Vai de certeza ajudar-me a evoluir brutalmente.
Colocas representar a Seleção Nacional no topo...
Esse é sem dúvida o meu objetivo principal neste momento. Seria a realização do meu maior sonho! Desde miúda que é o meu sonho ganhar uma competição a representar Portugal!
Já participaste em estágios da Equipa Nacional, como foi essa experiência?
A convocatória foi a melhor noticia do ano! Depois de ter estado tanto tempo doente, impedida de surfar e ter dado a volta à situação com tanto esforço, o maior prémio que podia receber era receber o e-mail da Equipa Nacional. Foi a minha maior felicidade! Recebi um boost de energia e acho que foi um dos motivos de ter mantido a cabeça firme e ter uma motivação extra. Os estágios foram ambos em Peniche, com ótimas condições e uma ótima equipa técnica nacional, que foi espetacular. Ótimos treinadores, que nos proporcionaram exercícios fundamentais para o nosso surf. Obrigam-nos a adotar novas estratégias conforme os exercícios que nos eram propostos. Adorei a experiência e anseio por mais!
Arquivo Mafalda Cunha
Quais as praias em que mais gostas de treinar?
Sem dúvida a Costa de Caparica. Temos a sorte de ter uma costa longa cheia de praias com fundos diferentes, que nos permite escolher aquela que se encaixa melhor no nosso surf. Em termos de free surf, é a Praia Grande porque tanto posso estar a surfar com amigos como estou perto da minha família depois do surf. O que me deixa mais feliz é conseguir conjugar as duas coisas.
Quem são as surfistas nacionais e internacionais que mais admiras?
É a Maria Salgado, com quem treino às vezes e de quem sou amiga. Como exemplo de dedicação e resiliência, admiro muito a Yolanda Hopkins. Sem dúvida, um exemplo a seguir. As surfistas internacionais que mais admiro são a Carissa Moore e a Erin Brooks.
Através da rede de livecams , podes visua lizar em direto e em tempo real toda a evolução do estado do mar e da praia.
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