Na manhã deste sábado, assistimos a (mais) um grande momento na história recente do surf português. Duas surfistas lusas monopolizaram a final de uma etapa da Challenger Series, no caso o sul-africano Ballito Pro. Foi a primeira vez que tal aconteceu no circuito de qualificação para o CT, onde o surf luso, fundamentalmente no lado feminino, tem sido tão bem sucedido nos últimos anos.
As protagonistas deste momento que jamais será esquecido foram Francisca Veselko, de 23 anos, e Teresa Bonvalot, de 26 anos, dois dos principais rostos da afirmação internacional do surf feminino português.
Em jogo, estava coisa grande: o título de campeã do Ballito Pro, a etapa inaugural da Challenger Series'2026/2027. Nesta maravilhosa situação win-win, o surf lusitano seria sempre o grande vencedor, mas individualmente faltava definir quem iria inscrever o nome na galeria de campeãs da histórica prova sul-africana, que celebrou a 57.ª edição este ano.
Tanto Kika como Teresa procuravam a segunda vitória da carreira neste super competitivo circuito, que em Ballito teve uma forte representação de surfistas do CT. A grande final decidiu-se em 40 minutos de bateria nas ondas de Willard Beach, que se mostraram com pouco potencial, oferecendo poucas oportunidades. Condições bem diferentes do que tivemos durante esta longa semana de competição.
Num duelo entre duas competidoras com estilos diferentes - Veselko surfa com o pé esquerdo à frente e Bonvalot é goofy - impôs-se Teresa. Mais de quatro anos depois daquela sensacional vitória no Sydney Surf Pro, onde ofereceu ao surf luso a primeira vitória em eventos da Challenger Series, a atleta de Cascais voltou às finais neste circuito e ganhou, mantendo o registo de invencibilidade neste departamento.
Com um eficaz surf de backside, que permitiu capitalizar as poucas oportunidades, a seis vezes campeã nacional somou 10,33 pts perante os 9,10 pts de Kika Veselko. Menos ativa do que a compatriota, a top mundial reagiu já dentro dos 10 minutos finais, desferindo ataques à liderança. Porém, apenas conseguiu melhorar a sua pontuação combinada. Não deu para o prémio maior, mas a prestação em Ballito dá um 'boost' de confiança à antiga campeã mundial Júnior da WSL para os próximos desafios no CT, num ano de rookie que não está a ser nada fácil.
Para Teresa Bonvalot, este foi um triunfo que transbordou de emoção. Culminou um sensacional regresso à competição, depois de quatro meses de ausência devido a uma complexa cirurgia ao pé direito. Durante a semana, assistimos a mais uma grande demonstração do letal instinto competitivo de Bonvalot. A competição está colada à sua pele.
Neste trajeto até ao topo do pódio, a atleta treinada por Manuel Gameiro suplantou duas surfistas do CT. Além de Francisca Veselko, contribuiu para a eliminação de Nadia Erostarbe, a quem sucedeu como campeã do Ballito Pro. Entre outras, também derrotou a medalhada olímpica em Tóquio'2020, Amuro Tsuzuki.
"É surreal! Não tenho muitas palavras. Muito tem acontecido. Neste momento, estou super emotiva. Se dissessem que iria vencer o primeiro campeonato após tanto tempo [de ausência], diriam que estavam a sonhar. Tentei permanecer positiva, de forma a viver o dia a dia e estar super presente", referiu a primeira surfista portuguesa a vencer um par de eventos na Challenger Series.
Depois, já na língua de Camões, visivelmente emocionada e com a voz trémula, Bonvalot disse na entrevista pós-heat à WSL: "Passado quatro anos, voltar a uma final de um Challenger e ganhar. Mais uma vez Portugal a fazer a história, a colocar duas miúdas numa final. Quem quer ganhasse, Portugal ia sempre ganhar. Parabéns também à Kika, também temos a Maria [Salgado] aqui. Estou mesmo fora de mim, estou só a querer chorar."
Teresa Bonvalot deixa Ballito com a vitória no bolso e a liderança do ranking feminino da Challenger Series'26/27, tendo somado os 10 mil pontos em disputa. Este foi um resultado muito importante na corrida à qualificação para o CT do próximo ano. Por seu lado, Kika Veselko também somou pontos bem valiosos com vista a uma eventual necessidade de requalificação para a elite mundial via Challenger Series.
O circuito prossegue já dentro de uma semana, com a realização do histórico US Open of Surfing. É a segunda de cinco etapas em agenda para esta campanha, num circuito que em outubro passará pela Ericeira, como já é habitual.
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